Alpha-12 – parte 8 e final
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma inusitada noite romântica, começa a desvendar a cidade mas quase acaba preso. Desesperado, procura refúgio num bar para andróides, onde recusa uma arrojada oferta de emprego como dançarino. Com ânimo renovado, deixa o bar e começa a andar sem direção, quando uma gangue de garotos auxiliados por um Kalca rapidamente acaba com sua alegria, imobilizando-o e carregando-o para um beco, que acaba servindo de cenário para uma luta entre andróides sem precedentes. Com suas esperanças robóticas em frangalhos, 568 começa novamente a andar, sem intenção de chegar a lugar algum.
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Post apocalyptic by Kasai at deviantart.com
Lixo.
Se a história desde minha recente ativação pudesse ser resumida numa só palavra, seria essa. Não só pela aplicação subjetiva, de sentido perjorativo, mas principalmente pelo sentido literal. Foi entre os restos de Alpha-12 que passei a maior parte do tempo, e agora é aos restos de Alpha-12 que retorno.
Minha estrutura física está danificada além da conta. Desde a queda vertiginosa com que fui recebido na cidade tenho procurado ajuda, mas minha situação clandestina e a falta de sorte, para me utilizar duma expressão humana , conseguiram me manter longe de qualquer perspectiva favorável. Pelo contrário, o desfile de atrocidades que sucederam nos últimos dias parece indicar que a cidade está viva e não me quer aqui.
O clímax dessa confusão toda foi um embate sem sentido contra outro Kalca, onde sem muito mérito para deter o título de vencedor, aprendi que até robôs chegam ao fundo do poço. Sem muita opção, caminhei, ignorando os avisos de desligamento iminentes que meu processador avariado trazia à tona, até que o sistema motor entrou em contagem regressiva e irreversível, direcionando todo o sistema para o modo econômico de salvaguarda. Com os poucos segundos que me restavam, me esgueirei até um beco sem saída entulhado de lixo e me joguei sobre a pilha recente de dejetos, afundando sem muito sucesso em me camuflar com o ambiente. Com o sistema motor desativado, minha consciência artificial foi relegada a um estado de observação inativo.
O que acontece nesses casos é o seguinte: um aviso emergencial é enviado via PoMo para a pessoa ou empresa dona do andróide, e um segundo aviso de recolhimento à Assistência Técnica da fabricante. Assim, nenhum andróide fica simplesmente largado no meio da rua, por um defeito ou acidente qualquer. Eles são recolhidos, consertados, quando possível, e então devolvidos às suas funções sociais, uma vez acertados os custos de seus reparos com a empresa responsável. O meu problema: não tenho registro, portanto não posso acessar a internet da cidade, e sem ter como notificar alguém, minha única alternativa é me esconder no meio desse lixo todo e esperar para ver o que acontece.
Pelo breve histórico que tenho até agora, não me surpreenderia se não fosse nada de bom.
SETE HORAS DEPOIS
A pequena nave-lixo se aproxima em silêncio. É a minha segunda visita nesse exílio indesejado. A primeira foi um mendigo espalhafatoso, que aliviou suas necessidades num canto e depois revirou toda a pilha de lixo atrás de comida, se contentando com alguma coisa embolorada que enfiou na boca, coxeando em seguida na direção da rua. A nave ativa seu holofote frontal para iluminar melhor o local e, com precisão cirúrgica, começa a revirar o lixo. Enquanto preenche seu pequeno compartimento interno, de 2,20m quadrados, pressionando os dejetos um sobre o outro, se depara comigo. Por um breve instante fica parada no ar, seus braços metálicos imóveis enquanto ilumina meu rosto. Sei que está acessando os relatórios de recolhimento das empresas cadastradas, como é feito de praxe sempre que uma delas topa com um andróide, e sei que não vai encontrar nada, me levando pro aterro interno para ser lançado novamente para fora da cidade.
Por um lado, talvez não seja lá uma má idéia. As chances são mínimas, mas Andras pode me achar novamente e me consertar. E à essa altura eu ficaria mais que satisfeito em levar uma existência tranquila do lado de fora, longe de toda a balbúrdia da cidade. Imagino como era para os humanos quando ainda podiam viver fora dos muros, longe da ameaça constante da radiação. Sei que muitos viviam isolados, afastados, em fazendas e propriedades rurais. Alguns por obrigação, pelo trabalho, mas muitos por opção. Posso entender porque, mesmo tantos anos depois, eles escolhiam viver longe de todo esse caos.
Enquanto calculo as chances de Andras me achar, agora muito maiores já que ele tem a moto e dois ajudantes, Frank e Rex, a nave-lixo sai de seu transe, vira o holofote para o lado e continua a recolher o lixo esparso. Ocupo muito espaço em seu interior, e posso ser facilmente carregado sobre ela. Por isso a nave continua limpando o beco imundo, tarefa que obviamente não pode ser concluída em apenas uma viagem, para então assentar-me sob seu teto, segurando-me com suas mãos metálicas e disformes e guiando-me até o aterro da empresa. Até torço por essa sequência lógica de eventos, já me visualizando dentro de uma das grandes naves-lixo, socado em seu compartimento espaçoso, atravessando um dos grandes tubos de descontaminação na fortificada muralha e então despencando, parte de um dos infinitos quadrados de lixo que chovem naquela paisagem desolada noite e dia.
Então percebo um humano se esgueirando para dentro do beco, cauteloso. É um homem grande e gordo, barbudo, sem cabelos na frente e no topo da cabeça, mas dono de uma extensa juba que rodeia os lados e termina num longo rabo de cavalo solto e desgrenhado, até o meio das costas. Vestido com um grande sobretudo verde-escuro sujo de graxa e botas pesadas de solado emborrachado, ele se aproxima sem fazer barulho. Diante da nave, que continua sua coleta de costas para o homem, ele agacha, alcançando no limiar do monte de sujeira um cano grosso de metal. Empunhando com as duas mãos, levanta-o acima da cabeça. Se pudesse eu gritaria, alertando a nave, mas não posso me mexer. O cano desce com força vertiginosa, acertando em cheio o quadrado metálico voador, que bate no chão com um lamúrio agudo e tenta ganhar altitude novamente, só para voltar ao chão com uma nova taquarada.
Dessa vez o holofote falha e desliga, e um pequeno fio de fumaça sobe da parte superior onde foi atingido. O homem larga o cano no chão e se dirige a mim, estirado sobre embalagens e pedaços de metal e comida.
- Sabia… – murmura. Puxando os arquivos de gravação de segundos atrás, percebo o rosto do homem observando a nave-lixo me escrutinando, parcialmente escondido atrás da parede que dá para a calçada. Minha empolgação com a perspectiva de ser levado daqui era tamanha que mal reparei no ambiente, sem atentar para o fato de que tal homem acabou de me privar dela.
Ele analisa meu corpo, deslizando os dedos pela superfície oculta pela roupa. Se surpreende com o amassado no peito, a marca do punho do Kalca, mas não parece se importar muito. Então me vira de lado e me tomba de bruços, repetindo o mesmo processo em minhas costas. Aparentemente satisfeito, ouço-o assobiar, e logo depois ouço passos pesados se aproximando.
- Pegue-o – diz o homem, sua voz pastosa e grossa ordenando o que só pode ser um andróide, que me levanta do chão e me joga sobre os ombros. Minha cabeça bate em suas costas e pende ali, balançando enquanto ele se move. Meus olhos biônicos captam o chão sujo e o fim de suas pernas, envoltas por uma calça preta de tecido grosso e sapatos simples de couro sintético remendado.
Deixando o beco, eles seguem pelas calçadas como se não tivessem acabado de danificar propriedade alheia, um crime punível com prisão. Não emitem palavras. Após quinze minutos, andando por ruas ora movimentadas ora tranquilas, passando por vários transeuntes, alguns cumprimentando o humano com um “E aí, Guido!” ou “Como vai, Guido?”, chegamos ao que percebo, pelo ângulo torto da calçada, uma esquina. Ouço uma porta eletrônica barulhenta se abrindo, e sou levado para dentro de um amplo espaço lotado de marcas de graxa no chão. Sinto um cheiro familiar. Finalmente sou largado sobre uma poltrona velha, a cabeça girando o suficiente para que apreenda o ambiente, se enterrando no encosto almofadado em seguida.
X-Men Divided We Stand 2 pg 27 excerpt by Chris Burnham
Estou numa oficina. O cheiro me lembra a de Andras, mas é diferente. O espaço é maior, embora não mais organizado. Várias carcaças de andróides e peças grandes pendem do teto, penduradas por ganchos de metal enferrujados. O chão está recheado de placas, chips, parafusos e outras quinquilharias, mas a bagunça está acumulada em pilhas, permitindo trilhas estreitas pelo lugar. Finalmente posso encarar meu captor com maior precisão, e enxergo as rugas se assomando ao lado de seus olhos, negros e profundos. A barba vai até o peito, um bolo preto e maltratado. O andróide, que acabou de me sentar, me contempla com feição impassível. É um modelo ultrapassado da Optimicom. Mas pelo que andei vendo na periferia, ainda é comum.
- Não te falei, Oito-doze-dois? Esse tá bonzinho. Vai dar pra usar quase tudo.
- Parabéns, chefe – responde o andróide com sua voz clara e genérica.
UMA HORA DEPOIS
Meus sistemas voltam à ativa e eu abro os olhos para me deparar com a cara pasma do meu captor. Seus olhos estão boquiabertos. Ele aponta para a TV instalada na parede a poucos metros de nós. Um extenso cabo ligado à base de minha coluna revela uma gravação da oficina de Andras. Nela, Andras anda de um lado para o outro procurando alguma peça para arrumar Frank.
- Aquilo… – ele me diz, apontando para a tela consternado, os olhos piscando rápido e a boca seca. – Não pode ser verdade… Qual o nome daquele homem?
- Andras? – respondo, surpreso por estar falando.
- Não… Ele foi preso. Como poderia estar lá for–
- Ele fugiu. É a única explicação lógica, e foi a que ele me deu. Você o conhecia?
- Conhecia? Essa oficina era dele! – suas mãos se fecham em torno do meu pescoço metálico mais rápido do que um exame superficial do homem poderia supor acerca de sua agilidade. – Que brincadeira é essa, Kalca? Que porra é essa?
- Brincadeira nenhuma. Pelo que posso deduzir, você tem conhecimento mínimo sobre andróides para saber que não podemos criar imagens. Simplesmente gravamos – os dedos afrouxam, e finjo certo alívio, embora o máximo de força que ele imprimisse à mão não fosse mais que um afago delicado em meu esqueleto metálico.
- Mas… Como pode alguém sobreviver lá fora? Sem proteção?
- Ele está lá há anos. Talvez devesse perguntar a ele.
- Não seja idiota, Kalca! Quem, em sã consciência, escolheria ir lá fora? Nem se quiséssemos! Você sabe muito bem que não temos portões convidando os cidadãos a um passeio. As únicas passagens são proibidas, vigiadas e guarnecidas.
- Isso não muda o fato de que ele está lá. Eu o conheci. Ele me contou sua história. Fugiu da prisão e erigiu uma oficina do lixo. Agora, tenho um pedido impo–
- Como foi que você chegou aqui, Kalca? Parece que passou por um moedor de lixo, seus sistemas internos estão uma lambança. E você levou um soco no peito. De um andróide. Que andróide bateria em outro andróide? Quem é você?
- Modelo K.A.L 14, Tecnobótica, número serial 42233568.
- Eu sei seus números, infeliz. Não estou falando disso. Você não tem registro. Sua memória interna está cheia de buracos. Períodos extensos de desativação. Isso não é normal. Você não é normal.
- Eu sei. Acredite, eu sei. Mas não tenho dados suficiente para elaborar uma resposta que seja–
- Seu desgraçado. Pare de falar como um andróide – ouvindo essa informação posso sentir um calafrio fantasma percorrer meus poros imaginários.
- Como assim?
- Como assim, seu puto? Por que você está me fazendo de besta? Não bastassem os vídeos de Andras, você ainda tenta me tapear…
- Desculpe, senhor, mas não compreendo.
- Por que você não pára de fingir – ele diz, quase encostando seu nariz no meu, dando fortes batucadas com os nós dos dedos na minha cabeça –, e me diz por que aqui dentro tem um cérebro humano?