Empoleirado
por Cristiano Imada
Meia-noite.
Distantes torres cospem colunas de fogo e fumaça, que se mesclam à camada negra de nuvens conforme ascendem. A luz sangue-alaranjada adorna as bordas do mar estático de dejetos, refletindo em ocasionais lixos metálicos. “As estrelas caíram ao chão” – um pensamento errante ecoa. – “Não há mais céu, não há mais esperança”. Os urros das labaredas se retorcem por entre as pilhas imundas, quais gemidos de agonia e medo. É a melodia noturna, para deleite da desolação.
O horizonte é indistinguível, tão obscuro quanto a abóbada infernal. Nunca se sabe onde está o limiar deste inferno – ou além do próximo morro pútrido, ou além da imaginação. E edificado sobre esta loucura ergue-se monumentalmente o muro. Rígido e intangível, sua sólida presença atordoa a paisagem reinante, e esta prosterna-se diante do muro, lamentando sua própria existência.
Caminhe. Percorra com sua mente este deserto. Não tenha medo, ignore esses eventuais movimentos fugazes, máculas da paz da imensidão. Vá em direção ao muro. Acelere. Mais rápido. Veja como os morros ganham vida ao seus olhos ao passo que os percorre, assemelhando-se a ondas sombrias. Sim, o muro parece não se mover, porém agora feche os olhos e dê um passo em uma nova dimensão. Abra-os novamente.
———
Impassível, Sigmund observa através da espessa camada de vidro as torres de extração, que dessa distância não passam de pequenos pontos de luz. Uma frase de um livro trespassa sua cabeça, fazendo-o esboçar um leve sorriso soturno. Embebido em sua emoção efêmera, Sigmund alisa com suas mãos enrugadas pelo tempo a sua longa barba branca. Regozija-se silencioso, saciado.
Sua torre de metal, embasada sobre a muralha, garantiria uma ampla visão do que está dentro e fora da barreira, não fosse a eterna penumbra. Sigmund não se importa com a precariedade da vista externa – tão pouco com o privilégio de ser um dos poucos permitidos a tentar apreciá-la. Ele sabe o que há para ser visto, e não é nada agradável. Até prefere não conseguir enxergar, uma vez que imaginar o que há por debaixo da sombra da humanidade tornou-se sua única diversão. Por horas ele encara as trevas do além-muro, rindo esporádica e sadicamente da ironia do comportamento humano.
Às suas costas a cidade pulsa ondas nauseantes de vida. A câmera telescópica fornece imagens do centro ampliadas para as telas flutuantes ao redor de Sigmund, incessantemente. Nelas, inúmeras construções de metal cintilam, sendo entrecortadas por veias de automóveis voadores. Luzes das mais variadas cores e formas dançam no ar, prometendo melhores futilidades ou ordenando que seus espectadores comprem futilidades antigas.
- Deseja algo para beber, senhor? – a voz sisuda vem do mordomo, que apesar do tom, é um jovem vestido a rigor.
- Você é capaz de sonhar?
- Perdão, senhor?
- Sonhar. Não é uma habilidade exclusivamente humana em seu sentido literal. Mais do que isso, quero saber se você é capaz de ter um belo sonho… um objetivo de vida… algo que o embale mais que as minhas ordens; um desejo, mesmo que reprimido, que o faz ter ocasionais devaneios…
- Meus sonhos não me parecem tão importantes. Neles, revejo acontecimentos do dia anterior ou uma série de imagens ilógicas…
- Você ainda não me compreendeu. E estes sonhos que descreveu são artificiais, até onde eu sei. Você foi programado para sonhar, enquanto descarrega a memória temporária de seu cérebro artificial. Isto torna seus sonhos ilegítimos, tanto quanto seus sentimentos…
Sigmund ficou a observar seu andróide pessoal. Encontrara sua resposta. Ele não é humano. Ele foi programado para ter emoções, o que não apenas as torna ilegítimas, mas também falsas. Assim, como ele poderia sonhar? Como poderia desejar algo com profunda convicção? Suas capacidades são tão limitadas que ele inclusive foi programado para ser criativo – tudo o que é capaz de fazer é misturar idéias antigas, mas nunca criar novas e geniais.
- Vocês estão fadados à idiotia. Jamais serão capazes de fazer algo para o qual seus programadores não os tenham preparado. Suas limitações são as nossas capacidades, e suas capacidades nossas necessidades.
O andróide fitou de forma impassível o seu senhor. Era habitual que seu mestre discorresse sobre assuntos estranhos, mergulhasse em longos devaneios e não terminasse suas falas. Se ele não houvesse sido reprogramado, já haveria feito o download de programas de análise psicológica e talvez até acionado o hospício. Os efeitos colaterais do coquetel de tecnologias, das quais os anciões utilizavam-se para aumentar sua longevidade, pareciam inevitáveis.
- Heinlein e seus adeptos acreditavam que o avanço na tecnologia permitiria criar seres tão semelhantes conosco que poderíamos considerá-los humanos em corpos de constituição metálica… - Sigmund continua, após sua breve e habitual pausa. – Obviamente, um corpo muito superior, imune à inevitabilidade da morte. Mas como considerá-los seres vivos, se cada partícula de seu ser é artificial? Nem precisamos rever nossos conceitos frente a sua existência, uma vez que vocês jamais serão nada além de um objeto, com a finalidade de nos servir, sem livre arbítrio. O homem não é capaz de criar, apenas moldar a criação em algo menos natural! Vocês estão tão distantes de serem considerados seres vivos naturais que além de incapazes de morrer, são incapazes de se reproduzir… Logo, vocês não possuem instinto de sobrevivência, desejos e sonhos genuínos, pois mesmo que não fossem frutos de sua programação, seriam inúteis, sem qualquer propósito.
- Senhor, está na hora de seus remédios. Irei buscá-los.
- Não. Não irei mais envenenar-me com aqueles calmantes inúteis.
- Senhor, os sintomas listados pelo Doutor Torrance estão se acentuando. Tenho ordens claras do doutor para medicá-lo.
- Coisa… eu sei que em essência você jamais será capaz de me compreender absolutamente, pois sua razão é um mero algoritmo de análise de dados; assim sendo, o que você pensa que é para classificar minhas reflexões como loucuras? Por fim, você é meu pertence e servo, são as minhas ordens que deve obedecer!
- Senhor, está na hora de seus remédios. Irei buscá-los.
Um estrondo irrompe no ar. Sigmund segura uma arma, o cano levemente fumegante. Um novo estrondo metálico – é o baque do corpo do mordomo atingindo o chão.
- Central, envie um novo andróide. E ordene que ele descarte este objeto maldito – a voz trêmula oscila em harmonia com o corpo e a arma. O suor frio caminha tortuosamente pelas rugas de sua face.
- Maldito seja, robô. Maldito seja.



Cris muito phoda sua história!
Sempre pesada e sombria, mas com um tom de quero mais, vc conseguiu colocar nessa…
continue sempre se superando seu mamute!
Alex