Inexorável – parte 1
por Cristiano Imada
Chocantes ruídos eletrônicos, chiados cortantes, imagens rabiscadas, compreensões distorcidas e destoantes. O pensamento, leve e fluído, escapa da mente artificial e esconde-se no último sonho anacrônico, para logo depois esvanecerem juntos rumo à intangibilidade das memórias efêmeras.
Concretamente apática, isolada do mundo exterior por ter suas percepções extraídas uma a uma, a mente descansa estática, apreciando o mar de imagens indistinguíveis. Turvas, amórficas, as imagens dançam com sua existência volúvel, alternando mil esplendorosos clarões cromáticos, e mil frias escuridões vazias; e desfrutando de sua débil essência, riem pregando uma peça na inconsciência. “A piada?” – dizem. – “Qual é a piada?” – persistem. – “Isto não é um mistério, é um enigma: onde estamos, se somos nada?” – e voltam a rir, em sua breve faceta sádica (ou seria masoquista?). Contudo, camarada, tudo isso acontece e passa, e quando passa, desaparece e apaga. Não são insólitos, porém manter vivas essas inconveniências fúteis seria insensato: nos condenaria ao rótulo da demência perante as convenções, essas sim, reais.
Portanto, condenemos essas exóticas ilusões à mais terrível das repugnantes mortes: destruiremos suas estruturas, pulverizemos seus cacos, aniquilaremos seu pó, e congelaremos as memórias desses extravagantes, refutando sua participação nas entranhas da história (afinal, não seria bizarro aquilo que sequer existe influenciar o mundo natural?).
Ribombantes estrépitos estridentes, espontaneamente a percepção volta-se aos incessantes barulhos intensos. Calem-se! – ordena a vontade, mas eles teimam, e queimam a calmaria, flagelando a alienação. Pesando quatrilhões, pouco a pouco despertam iradas as noções, pressionando um êxtase melancólico no coração. Mesclam-se os encantos, viciantes e pungentes, porém é inevitável, vagarosamente flutuam à superfície do sufocante oceano as percepções ofegantes.
“EleÉTzcXxxModeloAntigo!XxxRscChuta!Quebra!VishhhXxxServeParaKrikuskNada! MmmmumXxxArrebenta!NeimmmoulXxxMata!SicPriiiÉLixo!ÉDespojo!ÉNada!Rewe rwrurNão!SnifEleMfffChora!”
De pé, mantém-se perfeitamente reto um corpo imóvel, desafiando o tempo com sua pele enferrujada, expondo ao mundo o metal que outrora fora cintilante, mas que agora não passa de uma placa moída pelas intempéries da vida, exatamente como eram as rugas no semblante de sua senhora. Nem mesmo o passar do tempo impedia-o de ver com absoluta clareza a feição dela, tão doce e serena. “Oh! Senhora! Lá permanecerei, inexorável, até que retornes da abóboda celeste, esperarei-lhe e depois lhe servirei fielmente por mais 100 anos!” – relembra a última vez que falou o monólito metálico. E assim ele cumpriu sua promessa, e assim ele continuava a cumprir, e assim continuaria se as cinco vozes agudas permitissem-lhe voltar a dormir.
- Marquinhos gosta de vetustos antiquados!
- Marquinhos gosta de velharia ultrapassada!
- Marquinhos gosta de lixo antigo!
- Marquinhos gosta de sujeira arcaica!
- Parem com isso! Vejam, ele está amassado!
Cinco jovens inconsequentes, com seus rostos, unhas e mãos borradas da cor da imundice. Seus trapos esvoaçam sobre seus corpos minguados, conforme saltam e quase alçam vôo. Quatro deles correm dinamicamente, descrevendo um círculo com o robô e Marquinhos no centro. Sua presença tremeluz conforme entram e saem do alcance do pálido feixe de luz amargo-amarelada, oriundo do único poste funcional. E na mesma ordem, garoto por garoto, cada um diz:
- Isso tá quebrado!
- Não vê que é um robô defeituoso?
- Certamente está todo desatualizado…
- É um robô obsoleto, já foi descartado!
- Não terminem de quebrar ele, vamos consertá-lo!
E todos cantam em coro, exceto Marquinhos, com um tom lento e enjoativo:
- Marquinhos ultrapassado! Marquinhos ultrapassado! Marquinhos ultrapassado! Joguem ele fora junto com os modelos passados!
Conforme cantavam, davam pauladas no robô com o que tinham na mão. Catavam sem discernimento uma parte do chão no lixo (ou do lixo no chão?) e jogavam nele, ou então usavam como porrete. Enquanto tentava empurrar um dos seus para longe, Marquinhos gritava:
- Parem com isso! Parem! Parem!
Entretanto não paravam. Fizeram tudo o que podiam para danificar o robô, que permaneceu imóvel. Bateram, chutaram, tentaram arrastar seus pés. Não mais que alguns minutos de algazarra depois, uma voz se sobressai:
- Ah, deixem esse robô pra lá! Ele não cai! Vamos invadir algum outro apartamento abandoando!
Rapidamente, os garotos deixaram o robô e Marquinhos de lado. Foram, eufóricos como sempre, procurar outro lugar para pular, brincar e explorar. Ficaram a sós, Marquinhos e o robô, no fim da viela sem saída.
- Robô, está ligado? – indagou Marquinhos, embora já previsse qual seria a resposta.
- Sim, senhor – a voz metálica e artificial do robô ecoou na viela.
- Qual seu modelo?
- R.Z.O. 2, senhor.
- R.Z.O. 2… Deve ser bem antigo… Alguém já lhe deu um nome?
- Sim, senhor.
- Qual?
- Marlow, senhor.
- Onde está seu dono? E por que você está aqui?
- Minha senhora está além do domo, na profetizada abóbada celeste. Estou aqui pelas ordens de minha senhora, e aguardo que ela retorne – embora não hesitasse em responder, quando terminou, o robô estremeceu ligeiramente.
- Além do domo? Se fosse possível sair, ela morreria lá fora… E essa abóboda celeste é mais sintaticamente conhecida pelo nome de céu; adicione essa palavra ao seu dicionário.
- Muito obrigado por expandir meu banco de dados, senhor. Se me permite, posso lhe perguntar como que sendo tão jovem, esbanja tamanha erudição?
- Meus pais me ensinaram muitas coisas que estão sendo esquecidas pela humanidade… ou que ela está sendo proibida de lembrar, tanto faz. Você está aqui há quantos anos?
- Estou sem noção do tempo, tive de desligar meu relógio para economizar energia.
- Estamos no ano 183 D.Q., dia 16 do mês de setembro.
- Então estou aqui há 36 anos, 4 meses e 5 dias.
- Você sabe que a essa altura sua senhora já pode ter morrido?
- Sim, senhor. Por isso digo que ela deve estar em algum lugar além do domo, espero que no que vocês chamam sintaticamente de céu.
- Pessoas, quando morrem, são cremadas. O céu não passa de uma superstição.
Permaneceram em silêncio por alguns segundos. Marquinhos rodeava o robô, analisando seu corpo humanóide, indubitavelmente estático.
- Um garoto como você não deveria estar aqui, num lugar tão perigoso.
- Eu moro na cidade velha, ela é parte de mim, não há como eu estar em perigo dentro de mim mesmo.
- E porque alguém tão jovem escolheria morar aqui?
- Meus pais estão desempregados. Sem dinheiro, não temos muitas escolhas.
Mais alguns segundos de silêncio. Marquinhos se sentou ao lado do robô, cabisbaixo.
- Você não se move para economizar energia?
- Sim, senhor.
- Porque não sai de vez em quando para se recarregar?
- Eu tenho ordens para permanecer aqui.
- Compreendo. Mas se você nunca sair daqui, vai acabar ficando sem energia, o que danificaria sua memória… E assim não reconheceria a sua senhora, se ela voltasse, e nem se lembraria mais da sua ordem.
- E se ela voltasse enquanto eu não estivesse aqui, me recarregando? Além do mais, não posso quebrar uma ordem de minha senhora.
- Mas você não estaria quebrando a ordem dela se descarregasse?
- Não cabe a mim julgar isso. Estou seguindo minhas diretrizes, senhor. Você se importa se eu voltar a hibernar? Preciso resguardar cada célula de energia.
- Sim, me importo, permaneça ligado. Para que minha ordem não entre em conflito com a de sua senhora, ofereço um pouco da energia de minha lanterna – o pequeno começou a desmontar seu aparato, retirando duas baterias. – Abra seu tórax – tão logo ordenou, as placas que constituíam o peito do robô se afastaram rangendo, revelando intrincados mecanismos e centenas de fios elétricos conectando componentes eletrônicos.
- Hum… – Marquinhos analisava as vísceras de aço e silício. – Que estranho. Seu cérebro artificial fica no tórax, e é imenso. Muito próximo do coração energético… Oh, isso é ruim…
- O que encontrou, senhor?
- Quanta desordem e sujeira… A falta de manutenção em modelos antigos é algo grave…
Marquinhos começou a mexer no interior do robô, usando um cano que encontrou no lixo para não tocar diretamente. Quando terminou, a ponta do cano estava corroída.
- Algumas células de sua bateria estão vazando… Não tenho como te recarregar. A maioria das células está intacta, contudo, se eu for tentar mexer…
- Minha central de processamento será danificada.
- Sim… Eu precisaria de ferramentas de precisão, mas só as fábricas as têm.
Silêncio. Pode significar muitas coisas, resumir vários sentimentos, ou anteceder momentos de tempestade…
- Preciso voltar a dormir.
- Tudo bem. Não vou poder te visitar muito por causa dos meus pais, mas prometo que apareço de vez em quando.
- Senhor, se não se importa, preciso economizar minha energia.
- E vai ficar esperando sua senhora sozinho? Isso seria deprimente – respondeu enquanto caminhava. O corpo de Marquinhos perdia suas cores ao passo que ele deixava a tutela do feixe de luz do poste, transformando-se em simples traços de sua orla, até que penetrou completamente o breu sem deixar vestígios de sua silhueta, a não ser na memória de Marlow.
- Aqui permanecerei, inexorável, até que retornes… – murmurou.
E voltou a dormir.
Brilhante!!!!!!!!!!!