Inexorável – parte 2
por Cristiano Imada
Números randômicos, relatórios de reinicialização complexos, linhas de comandos de máquina. Marlow despertou rapidamente, um pouco zonzo, o que significava que não havia dormido por muito tempo, pois sua memória não estava demasiadamente carregada com sonhos supérfluos.
Tão logo acordou, levantou seus olhos mecanicamente em direção ao horizonte, e começou a procurar por sua senhora, em vão. Mesmo se a escuridão que o cercava permitisse ver alguém a distância, Marlow já sabia pelo seu processamento lógico que não havia como sua senhora estar lá. Ao contrário, próximo a Marlow estava Marquinhos, o garoto que o acordara da última vez. Vestia roupas classificadas como de marginais pelos borrões que denotavam sujeira, os inúmeros rasgos e os remendos. Sua estatura era pequena, exatamente 1,5235m, Marlow calculou que ele pesava 42,321Kg pela profundidade que seus pés afundavam na sujeira conforme andava, assim como também seu rosto tinha formas suaves e proeminência laríngea pouco desenvolvida. Essas características, analisadas por Marlow, permitiam avaliar sua idade em cerca de 12 anos, 3 meses e 4 dias, com uma margem de erro de 5%. Pela intensidade das flexões dos músculos do rosto, Marlow sabia que ele estava alegre. Por fim, Marquinhos carregava em suas mãos objetos orgânicos não identificáveis.
É claro, essa é a forma como Marlow vê Marquinhos, e é o modo de como ele foi programado para ver o mundo. Construído com o objetivo de fazer companhia e trabalhar como mordomo, essa rotina de análises era útil no cumprimento de suas funções. Por exemplo, sabendo que um humano o qual deve agradar está com fome, Marlow lhe ofereceria comida. Usando de sua extensa memória, cruzaria dados para predizer o que esse humano gostaria de comer no momento, analisando suas preferências em relação aos horários e aos inúmeros estímulos que ele recebeu no dia-a-dia. Notando que um ser humano está triste, se não fosse demasiadamente triste, tentaria animá-lo, contando alguma piada de acordo com o gosto do humano, fazendo alguma trapalhada calculada, ou algo menos trivial. A idade, estatura e peso também eram importantes para analisar as preferências, e no mínimo evitar, por exemplo, fazer uma piada sobre loiras para uma loira, sobre gordos para um gordo ou sobre bêbados para um bebum.
- Olá, Marlow – a voz imatura de Marquinhos ecoou levemente nas paredes rachadas pelo tempo.
- Olá, Marquinhos – Marlow já começava a demonstrar certa intimidade parando de chamá-lo de senhor, com o programado intuito de parecer agradável. – O que traz nas mãos?
- Meu pai me ensinou que se chamam flores – Marquinhos levantou-as, para que o robô não precisasse virar muito seus olhos. – São o tipo de coisa que criam nas estufas.
- Mas não são poucos os humanos permitidos a entrarem lá? Como você me disse que não tinham muito dinheiro…
- Isso não é lógico, não é mesmo? Bem, diria que dá para encontrar muitas coisas interessantes na Cidade Velha. Como objetos estranhos chamados flores, robôs descartados a esmo, sem serem coletados… – Marquinhos fez uma pausa, instintivamente esperando uma reação irracional, esquecendo-se brevemente de que Marlow era um robô.
- Essas flores são belas. Vou adicioná-las ao meu banco de dados, se me permite.
É claro, Marlow não é capaz de apreciar a beleza. Tanto que só consegue distingui-la graças a intrincados algoritmos, enraizados em sua programação. As flores tinham misturas de cores situadas em faixas de ondas que denotavam vividez, formas de ângulos harmônicos e simetrias em suas dimensões. Isso era o belo para Marlow – eram características esperadas, classificáveis e comparáveis a um padrão. Talvez o mesmo seja para com o homem, todavia o homem pode mudar seus padrões, e só o homem – nenhum outro animal ou robô – é capaz de se espantar e se maravilhar com o esplendor daquilo que é belo, fascinando-se, entregando sua consciência e sua paixão a um objeto somente porque este deslumbrou-o.
- Belas? Eu as achei estranhas. São moles, e pegajosas, e úmidas, e… vivas…
- Será que a palavra que gostaria de dizer é “orgânicas”?
- Sim, isso, perfeito… São orgânicas.
- Mas se elas lhe causam estranheza, porque não se desfaz delas?
- Ah… É que elas têm um aroma bom… – Fez uma longa inspiração com as flores enfiadas em seu nariz, como se aquela fosse a última vez que respiraria na vida. Em seguida, levantou-as novamente, aproximando-as do rosto do robô. – Seu modelo consegue sentir o cheiro?
- Não… Não sou capaz disso…
Todas as máquinas, sem exceções, são burras. Não são capazes de pensar ou de fazer algo por conta própria; somente quando operadas ou programadas elas podem fazer algo de útil. Isso não era diferente para qualquer andróide produzido pelo homem: mesmo o mais humano deles ainda era apenas um robô programado para aparentar humanidade. Até mesmo as pequenas pausas na fala de Marlow eram previstas e programadas, tornando-o um ser mais afável.
- Que pena… – Marquinhos voltou a inspirar o perfume, caminhando tranquilamente ao redor de Marlow. – Eu as trouxe para você. Meu pai estava pesquisando como construí-las, ou melhor, plantá-las. Mas já é difícil manter o pouco conhecimento que eles encontraram, quanto mais achar novos. Ele conseguiu um objeto arcaico que diz se chamar livro, mas está numa linguagem totalmente estranha, provavelmente criptografada. Tem fotos antigas de várias flores. Se meu pai descobrir como plantar essas tais flores, depois que ele me ensinar eu prometo que vou plantar um monte delas ao redor de você…
- Isso seria uma imensa gentileza e generosidade… Eu ficaria… muito grato… – Marlow abriu um grande sorriso, expondo alguns micromotores, nervos de aço e outros componentes metálicos.
- Eu ia dar essas flores para… uma menina… mas não tive coragem. Vou deixá-las com você, para que elas te façam companhia. Tome – e estendeu as mãos com as flores. Marlow fez o mínimo de movimento possível, pegando as flores com uma mão, e em seguida retornou o braço à posição original, deixando-o descansar ao lado do corpo, suspendendo a mão floreada.
Inúmeras simulações de pensamentos começaram a desencadear na mente de Marlow. Uma diretriz estava acionada, ordenando que Marlow criasse mais assunto para a interação com o garoto. Era uma de suas diretrizes primordiais, que denotava o objetivo de sua existência: agradar os seres humanos. Ele sentia uma necessidade de socializar-se, o que talvez fosse uma interpretação extrema dessa diretriz.
Não que isso fizesse diferença para Marlow, que como qualquer andróide, não sabia e jamais saberia como funciona a própria central de processamento, como foi definido o seu próprio ser. Marlow apenas sabia que ele devia conversar com o Marquinhos, e agora procurava uma maneira de fazer isso, sem se perguntar o porquê. Suas idéias iam sendo avaliadas uma a uma, e as que eram descartadas, ficavam de lado para serem comparadas com futuras. Um nível acima (ou abaixo?) de sua consciência, as diretrizes se chocavam, e venciam conforme as hierarquias pré-estabelecidas.
Brincar de pega-pega? – pensa Marlow. Isso agredia uma de suas diretrizes essenciais – as antigas leis de Asimov. Ele foi ordenado pela sua senhora a ficar ali, no meio daquela viela sem saída, em um das bairros esquecidos da cidade velha. Brincar de pega-pega exigiria movimentos, que gastariam sua bateria, deixando-o sem energia. E sem energia perderia sua memória, e sem sua memória não se lembraria de sua ordem ou de quem foi sua senhora. Se esquecesse qual era a sua ordem, acabaria por quebrá-la, e assim violaria uma diretriz inalienável. Assim sendo, mal terminara de pensar o último “pega” e sua mente já descartara a idéia.
Brincar de esconde-esconde? - dessa vez, mal terminara de pensar o último “esconde” e sua mente já percebera a semelhança com a última idéia, descartando a nova também.
Ele pode estar com fome. Ofereça comida – e a mente de imediato lhe pergunta: qual comida? – e Marlow se lembra que flores são orgânicas. Se são orgânicas, podem ser comestíveis - responde a mente. – Sim, é isso mesmo – conclui Marlow.
Em menos que alguns milésimos de segundo, a máquina responde ao agrado de Marquinhos:
- O senhor não está com fome? Eu tenho aqui apetitosas flores que podem saciá-lo…
- Hã… Não, obrigado… Não acho que essas flores sejam apetitosas…
Marquinhos começou a rir gostosamente da ingenuidade do robô. “Ele está rindo” – analisou Marlow. “Rir é positivo. Consegui”. E, programadamente, Marlow começa a rir também. Mesmo com sua voz artificial, metalicamente rouca, o contexto do evento e os paradigmas da época permitem dizer que era uma risada, à sua maneira, bem natural, quase sincera.
- Isso foi engraçado. Acho que essas flores não são sequer comestíveis…
Um processo dispara na mente de Marlow, adentrando diretórios em busca de um arquivo específico. Ligeiramente o encontra, e lê parte do conteúdo:
ação: oferecer comida – atributo: engraçado 0 — geral // padrão
Em seguida, altera o arquivo, adicionando uma linha:
ação: oferecer comida – atributo: engraçado 7 — situacional [erro de análise de comestibilidade] // observado 1x
Porém, logo abaixo da recém-adicionada, encontra outra linha:
ação: oferecer comida – atributo: perigo 5 — situacional [erro de análise de comestibilidade] // observado 1x // .+lembrança ; end do.ant.vit.fat||165899472 && emoção :: (calafrio,tristeza,auto-piedade)
Marlow estremeceu vagamente, e sua expressão se fechou. Lembranças antigas vieram à tona. Mas por trás de seus pensamentos artificias, seu processador continuava a trabalhar com arquivos e anotações invisíveis para sua mente. No momento, adicionava uma última observação um pouco mais próxima do topo do texto do mesmo arquivo:
=> atributos conflituosos * risco de assassinato [atributo 56 x atributo 102]
- Perdão senhor, eu não sabia… – desculpa-se Marlow.
- Tudo bem, tudo bem. Eu tenho que ir agora, meus pais me pediram para voltar antes do meio-dia. Eles vão me ensinar algo novo hoje – Marquinhos disse ao mesmo tempo em que ligava sua lanterna. – Até mais, Marlow. Hoje foi divertido conversar com você.
- Até mais, Marquinhos – Marlow respondeu ao passo que fazia suas últimas anotações sobre o encontro em um novo arquivo do diretório interações, rotulado como íris: {fcb6654t # 65,34º # 34,56º # 43,57º} + nome: marquinhos + 12 anos [estimado] + estado: [mendigo] – data: [inestimável] – local: [rua desconhecida [não mapeada] / {cidade velha}]. Entre suas várias lembranças, guardou as pequenas alterações de peso e altura, dados sobre a conversa como o nível de intimidade e tópicos abordados, adições ao dicionário, energia gasta e apontamentos sobre as possíveis preferências de Marquinhos, em especial de humor. Terminadas, começou a desligar parte de seu sistema operacional, entrando mais uma vez no estado de hibernação.
- Hoje foi divertido conversar com você… – sussurrou Marlow, quase inconsciente. E logo em seguida voltou a dormir, com a mesma simulação de sonho habitual.
cara o que que é isso… estou hipnotizado. È brilhante!!
è uma pena que no Brasil não se dá muito valor a esse tipo de literatura….