Inexorável – parte 3
por Cristiano Imada
25/11/183 d.q.
As flores estavam murchas e suas cores haviam desbotado, adquirindo uma tonalidade marrom. Marlow abriu sua mão, deixando-as cair no chão, obedecendo a ordem do garoto. Em seguida pegou as novas flores que Marquinhos trouxe.
- Elas morrem rápido. – observou Marlow.
- Meu pai me disse que elas precisam ser enfiadas na terra para sobreviver. Como é mesmo? Ah sim, o termo é “plantadas”. Estava escrito naquele livro que encontraram.
- Já conseguiram descriptografá-lo?
- Aquilo não era um código, era um outro “idioma”, uma outra forma de falar, escrever e pensar. Parece que existem vários, eu nem sabia disso.
- Interessante. E essa garota, por que recusou as flores?
- Ela não gostou… Ela prefere coisas que se mexem e emitem sons, como hologramas…
- Que pena…
Marlow percebeu a tristeza do garoto. Entre humanos, sentimentos eram contagiantes, criando compaixão em tais momentos. Essa era uma das medidas da natureza humana para incitar a criação e manutenção de uma sociedade. Mas Marlow era um robô-mordomo, e como tal, não era capaz de verdadeiramente sentir, mas apenas demonstrar sentimentos para cumprir seus objetivos. Assim, o olhar de Marlow adquiriu um brilho compadecido, murcho como as flores no chão.
- Sua conexão com a internet deve estar desligada para economizar energia, não está? – indagou Marquinhos.
- Sim.
- Como ninguém vai te encontrar aqui, acho que não tem problema eu falar para você… Essas flores, na verdade, meus pais… acharam nas estufas. E agora que vão viver nos túneis, pretendem criar algumas delas lá.
- Nos túneis? Isso não é impossível? Eles ainda existem?
- Não… Não, me desculpe, Marlow, estou delirando… Deve ser toda essa fumaça aqui da orla – tentou dissimular Marquinhos, sabendo que falara mais do que podia. – O que importa é que eles vão pra longe, vão… se esconder. E acho que nunca mais os verei, e nem a menina de quem falei, porque os pais dela vão pro mesmo lugar…
- Mas porque seus pais vão para lá? Eles são criminosos?
- Você promete que nunca vai dizer para outra pessoa, caso algum dia alguém venha até aqui?
- Não vejo porque alguém viria aqui perguntar isso.
- É… Bom, meus pais viviam mais no centro, quando tinham emprego. Mas os robôs os substituíram… Agora eles vivem aqui, e fazem parte de um grupo de pessoas que passaram pela mesma situação. O governo não gosta deles, mas eles tentam chamar a atenção do governo e causam confusão quebrando alguns robôs de vez em quando. Eu nem disse pra eles sobre você, se não eles iriam quebrar você também…
- E porque você não vai com eles?
- Eles conseguiram uma vaga numa escola para mim, com a ajuda de alguns amigos antigos deles. Daí me falaram que vai ser melhor se eu viver lá no centro…
A intensidade da tristeza de Marquinhos aumentava. Marlow monitorava sua expressão corporal, sua respiração e a dilatação das pupilas, e atribuía um valor, uma nota aproximada classificando o sentimento dele. Processos consoladores iniciaram em sua cabeça.
- Talvez eles tenham razão… Viver no centro deve ser muito melhor… E estudar é um privilégio…
- Mas também vai ser ruim não poder mais ver eles… E também saber que eles vão estar em um lugar ruim… Eu não quero ficar longe deles, e muito menos saber que vão estar sofrendo…
Marlow estava sem palavras. Sua programação não havia sido escrita visando situações tão delicadas. Ele sabia que era necessário para os humanos desabafarem suas emoções, como se confidenciar suas dificuldades melhorasse a situação. Os humanos procuravam o consolo no próximo, esmolando piedade ao exporem sua tristeza. Ou seja, contagiavam uns aos outros com suas dores, com esperança de obter alguma ajuda e proteção. Contudo Marlow era um robô, e pior do que isso, suas diretrizes o impediam de se mover, de pelo menos dar um abraço no garoto. Mesmo que Marlow não possuísse tato e verdadeira compaixão, ele devia ajudar Marquinhos, e um abraço era melhor do que nada. Porém a diretriz que o impelia a ajudar os humanos estava abaixo da diretriz que o impelia a obedecer os mesmo humanos. Tudo o que Marlow podia fazer era ouvir a lamúria dele, e citar algumas frases comuns de se dizer nesses momentos.
- Vai ficar tudo bem, Marquinhos…
- Nem você vou poder ver tão frequentemente…
- Não se preocupe, eu sempre estarei aqui…
Marquinhos esboçou um leve sorriso, ao mesmo tempo que enxugou as lágrimas nos cantos dos olhos. Então deu um abraço no andróide. Marlow continuou imóvel, embora dezenas de processos e diretrizes estivessem agitadas e ocasionalmente se chocando em seu inconsciente.
- Eu tenho que ir agora. Uns amigos do meu pai vão me levar lá para o centro, pra eu me preparar pra entrar na escola. Vão até me dar algumas roupas novinhas.
Em seguida começou a se afastar, cabisbaixo, indo embora.
- Até mais, Marlow…
- Até mais… se… comporte… – Marlow falou ao mesmo tempo em que entrava no modo de hibernação.
———
25/12/188 d.q.
- Olá Marlow.
Já fazia 5 anos desde que Marquinhos havia se mudado para um apartamento vários metros acima da Cidade Velha, e começado a estudar em uma escola particular. Desde então, todo final de ano Marlow era acordado com a mesma saudação.
- Olá, Marcos.
Marlow parou de chamá-lo pelo diminutivo desde o ano passado, quando percebeu que isto estava começando a irritá-lo levemente. Afinal, Marcos já era jovem, e jovens gostam de serem tratados com a mesma seriedade que adultos.
- Quais as novidades? – perguntou Marlow.
- Está tudo indo muito bem. Se der certo, eu vou conseguir o direito de continuar a estudar, entrando na universidade!
- Incrível!
- Sim… Eu já até sei no que vou me especializar… – Marcos olhou profundamente nos olhos de Marlow com um leve sorriso espontâneo. – Vou estudar robótica…
- Que impressionante, você com certeza é um grande motivo de orgulho para seus pais!
Marcos mordeu o lábio superior ao passo que abaixou os olhos e a cabeça, e logo em seguida ergueu-os, fitando a névoa de fumaça onipresente, dançando e criando espirais acinzentadas no nada, sob a luz do único poste funcional daquela região. As névoas rodavam e rodavam e rodavam… E então desciam e subiam e se chocavam e morriam e nasciam… Sempre tentando escapar da sua compreensão, vestindo-se de uma frieza imaterial.
- Meus pais tentaram me convencer do contrário, de que eu não devia estudar robótica. Como já disse, eles odeiam robôs. Eles acham que é por causa dos robôs que agora têm de viver em condições precárias e sempre com medo da polícia… Eu sei que eles querem o melhor para mim, mas eles não sabem porque tomei esta decisão… Além do mais a vida é minha, como eles podem querer decidir tudo por mim?
Marlow, sendo um andróide antigo, não era preparado para tal profundidade de conversa. As diretrizes e algoritmos estavam sobrecarregando seu pobre processador, tentando posicionar Marlow na discussão, calculando qual a próxima frase a ser dita para manter um fluxo lógico. Mesmo sem compreender de fato uma conversa, esta forma de agir e reagir era uma ilusão satisfatória do comportamento humano, mas somente funcionava para as situações previstas, pois assim Marlow estaria preparado. De qualquer forma, por extrema coincidência, Marlow quase sempre conseguia manter a conversa com Marcos.
- E porque você tomou a decisão de fazer robótica?
Com um discreto brilho, os olhos de Marcos novamente encontraram de forma profunda os frios olhos de Marlow.
- Porque assim vou poder te ajudar… Quem sabe, se eu for trabalhar em uma fábrica, como a Optimicom, consiga acesso às ferramentas para consertar seus defeitos…
A mente programada de Marlow percebeu a gentileza na fala de Marcos, mas deixou escapar um item fundamental, a motivação implícita: o gesto de amizade. Programado de forma a explorar as vantagens de um corpo robótico, ele conseguia ler emoções pelos sinais do corpo, mas não pelas palavras.
- Isso seria uma imensa gentileza e generosidade… Eu ficaria… muito grato… – Marlow abriu um grande sorriso, expondo alguns micromotores, nervos de aço e outros componentes metálicos. Contudo, nem a falsa gratidão e nem o falso sorriso se encaixaram na situação, de forma que qualquer um notaria certa incoerência na previsível resposta de Marlow, o que acabaria por causar até certo constrangimento. A resposta mastigada e cuspida, o sorriso tão sem graça, tão ordinário, era justamente o máximo que podíamos esperar do robô, era seu limite intransponível: reagir de forma repetitiva e idêntica em situações que sua grosseira programação considerava semelhantes.
Apesar disso, Marcos pareceu não notar a falta de tato de Marlow nem quando ele mudou bruscamente de assunto, como se isto fosse uma característica de sua personalidade.
- E como vai a sua namorada?
- Quem? Ah, a Laurinha. Nós terminamos faz alguns meses já. Desde então não me interessei por mais ninguém.
Marcos retirou sua mochila das costas e a deixou cair no chão. A intensidade do baque revelava que ela estava um pouco pesada. O barulho da pancada da mochila no monte de lixo ecoou por alguns segundos, marcando a profundidade da jornada do som por entre as entranhas da espessa escuridão. Ignorando a ruptura do silêncio, Marcos abriu sua mochila e retirou dela duas garrafas.
- Como você não bebe álcool, trouxe óleo pra você.
- Isso é muita gentiliza de sua parte. Você se importaria em me ajudar?
- É claro, Marlow, é claro. – Ninguém sabia melhor do que Marcos sobre a movimentação limitada de Marlow.
Uma hora depois e Marcos já estava a rir à toa, enquanto Marlow estava todo lambuzado de óleo.