Inexorável – parte 4
por Cristiano Imada
10/12/193 d.q.
- Pronto, isto deve ajudar por enquanto. Olá, Marlow.
Marlow demorou um pouco a abrir seus olhos. Começaram com leves espasmos, que intensificaram-se gradualmente, e enfim interromperam repentinamente. Os olhos focaram o horizonte, arregalados. Enfim voltaram à sua expressão habitual, e miraram Marcos.
- Olá, Marcos. Como está?
- Eu estou bem, ao contrário de você, cada vez mais aos pedaços – respondeu com um breve sorriso. Marlow imitou-o, esboçando um sorriso desengonçado. – Sua bateria estava quase no final. Consegui dar uma pequena carga, mas ainda tem muito o que consertar.
As placas que constituíam o peito de Marlow estavam abertas, com dois fios precisamente presos a pontos vitais da estrutura robótica. Marcos desconectou-os, e começou a retirar mais algumas peças.
- O seu modelo me é estranho, sendo muito diferente dos que estou acostumado a trabalhar. É claro que tem algumas coisas parecidas, mas nunca me senti tão inseguro ao tentar consertar um andróide… Hum… Pra que será que serve isso aqui? Hum… – Marcos colocou com cautela a chave de fenda no interior de Marlow, movendo a mão com uma firmeza impressionante. Porém, apesar da rigorosidade, assim que girou a chave uma faísca e um barulho subitamente irromperam. Marcos retirou a chave instantaneamente sem qualquer susto aparente devido ao curto-circuito. Ao contrário, continuou a observar o tórax com perplexidade em relação às engrenagens pulsantes, os fios emaranhados e os circuitos ultrapassados. – Hum… Nada de mais, nada de mais…
Marlow não demonstrava desconforto, mesmo quando ocorreu o curto. Continuou apático, sem se importar em ter suas vísceras expostas e modificadas.
- Veja Marlow, eu preciso instalar uma nova bateria, e isso só para começar… Não… Nem tem como fazer isso, nem a minha empresa tem suas peças. Eu precisaria buscar no lixo alguma coisa que lhe sirva, nem o mercado negro deve se importar com andróides da sua geração. – Marcos suspirou e refletiu por alguns segundos, coçando sua rala barba. – Nem tem como passar seu processador central para um corpo mais novo, sua estrutura é muito diferente. Ele fica no tórax… – Marcos curvou-se para voltar a olhar mais de perto o corpo de Marlow. Ele já estava alguns centímetros mais alto do que o andróide.
- Que projeto… – Marcos guardou a última palavra, percebendo a tempo a descortesia que seria completar a frase: “…ridículo”. Mas não deixou de completá-la mentalmente.
- Você deveria dormir melhor, Marcos.
As olheiras sob os olhos de Marcos estavam profundas e contrastavam com sua palidez, ambos frutos da sua insaciabilidade intelectual. Marcos se apaixonara pela robótica, a ponto de viver em função dos estudos, de se satisfazer com cada nova informação adquirida.
- É… – Marcos sorriu novamente, coçando sua cabeça com desconcerto.
- E como foi seu ano, conseguiu uma namorada nova?
- Hã? Ah. Não – o sorriso e a descontração escorreram da face de Marcos.
Marcos sentou-se ao lado de Marlow, como sempre costumava fazer. Retirou da mochila duas garrafas, quase presas no meio de tantas outras coisas que disputavam um pedaço de espaço ali dentro. Eram chaves de fenda, alicates, baterias, peças robóticas, circuitos eletrônicos, apetrechos medidores de última geração e muitos outros. Uma das garrafas era de pinga barata, a outra era de óleo barato.
- Sabe Marlow, seria muito mais fácil se você subisse comigo por uns instantes. Lá na fábrica eu conseguiria consertar a maior parte dos seus defeitos. Não posso trazer as ferramentas de precisão; além disso ser proibido elas são enormes.
- Eu não posso sair daqui – paradoxalmente, o eco metálico característico da voz de Marlow amenizou a rispidez da resposta.
- Eu sei, nunca me esqueci disso. É só uma suposição – Marcos engoliu um grande gole da pinga, fazendo um barulho coaxado com a garganta enquanto o líquido descia queimando. Quando chegou no estômago, Marcos bafejou longamente, expelindo parte do sabor residual de devastação tácita. – Se você subisse. Se.
Marcos deitou-se sobre o lixo. Despejou um pouco da pinga em sua boca e gargarejou-a antes de engoli-la.
- Suponha, o que você faria se subisse?
- Eu só subiria se minha senhora retornasse. Nesse caso, a primeira coisa que eu faria seria… Preparar o chá de limão com leite que ela tanto gosta, acompanhado por cinco bolachas de água e sal, e um pouco de requeijão cremoso. Em seguida, aguardaria por uma nova instrução. Conhecendo-a bem, eu sei que ela pediria para que eu esquentasse algumas toalhas, e então que eu colocasse-as sobre seu dorso e seu rosto, para relaxar enquanto eu massageasse seus pés.
“Não há imaginação e nem criatividade em robôs… Não há nada que torne Marlow diferente dos outros… Exceto o fato de que...” – Marcos não completou seu pensamento, descontinuado pela súbita observação que era a primeira vez que Marlow dava detalhes sobre sua senhora, mas concluiu que era melhor não se aprofundar no assunto.
- Marlow, você se lembra da minha promessa? – Marcos mudou de assunto, voltando a mexer na mochila. Gastou alguns minutos remexendo e tirando diferentes objetos dela, ao passo que Marlow buscava alguma promessa na sua memória.
- Você prometeu que iria plantar flores ao meu redor se aprendesse como.
- Sim. Mês passado eu me encontrei com meus pais, depois de anos sem vê-los… Aqui! – Marcos retirou da mochila um saquinho plástico. – Foi emocionante, eu sentia muita saudade deles. Depois de muito conversar, eles me deram isto, e meu pai me ensinou a plantar. – Marcos abriu o saquinho, que continha uma pequena semente, um item raro em Alpha-12. Esta era modificada geneticamente para germinar nos terrenos mais inóspitos. – Você é para mim um grande exemplo, Marlow. Um exemplo de como promessas são importantes e devem ser cumpridas. De como devemos lutar sem desistir por aquilo que acreditamos, por aquilo que sonhamos. E de como algumas pessoas podem ser importantes para nós, nos preenchendo com esperança. Por isso, eu vou cumprir hoje a promessa que fiz anos atrás…
Sorriram juntos. Não existe compromisso no sorriso, entretanto, paradoxalmente, um sorriso sincero pode ser a melhor promessa de que tudo acabará bem. Enfim, sorriram. Alegre e agradavelmente, cúmplices da mesma promessa, inocentes na mesma promessa.