Alpha-12 – parte 1
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Convencendo Andras a ajudá-lo, 568 consegue, numa arriscada manobra, pegar carona no compartimento interior de uma das inúmeras naves-lixo, adentrando a cidade sem maiores problemas. Contudo, ainda longe de segurança, a centenas de metros do solo, a comporta inferior da nave abre repentinamente, expulsando nosso herói para a imensidão fria e fatal.
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Que sensação estranha.
Free Fallin by manj3d at deviantart.com
Poucos segundos separam minha queda vertiginosa do inevitável impacto no chão, de peças voando em todas as direções, chips esmagados, metal retorcido. Nada mais irônico que cair na área do lixão de Alpha-12. Ninguém terá que se dar ao trabalho de jogar meus pedaços fora. Heh. Olho para cima, para a nave-lixo no céu. Ela continua deslizando no ar, perdendo altitude gradualmente. Depois do desespero, ou do que minha programação diz ser isso, tento acessar algum tipo de relatório das atividades dessas naves, a fim de entender por que ela percorre um caminho diferente do normal ou abriu sua comporta, mas nada me chama a atenção. Insatisfeito, calculo para onde ela se dirige, no solo, e traço um paralelo com o mapa dessa área.
Manutenção. Todas as naves-lixo passam por testes periódicos de manutenção. A nave segue para os grandes galpões onde dezenas de andróides, máquinas gigantes e técnicos humanos operam suas vistorias de rotina. Meus cálculos dizem que a chance de entrar numa nave enlistada para o exame de manutenção era de 0,26%. Chamar esse desdobramento de azar seria pouco, mas, uma vez aceita minha falta de sorte e consideradas as circunstâncias, talvez a abertura da comporta não tenha sido a pior das resoluções. Se eu continuasse lá dentro, poderia acabar descoberto, identificado como um andróide não registrado e reprogramado para trabalhar na usina subterrânea ou algo semelhante.
Junkyard by Vofff (excerpt) at deviantart.com
Droga. Certo, certo. Pensar em coisas boas, é isso que sou programado para dizer a humanos que estão em maus bocados. Talvez eu devesse fazer o mesmo.
Mas tudo em que consigo pensar é que minhas chances de sobrevivência são nulas.
A dez metros do chão, de costas no ar, meu corpo desacelera bruscamente, como se a gravidade repentinamente tivesse sido ligada ao contrário. A sensação lembra uma massa se esborrachando contra uma parede invisível. A três metros estou parado em pleno ar. Dali despenco novamente, atingindo o chão de terra batida, desnorteado. A desaceleração traduziu-se numa pancada generalizada a mais de 200 km/h. Minhas roupas remendadas, rasgadas no processo, caem ao meu lado, junto de algumas moedas que ganhara de Andras e guardara no bolso. O sistema acusa no visor uma perda de 34% na funcionalidade total do corpo; deslocamento de fios, circuitos queimados, componentes esmagados. O sistema de auto-recuperação redireciona as partes funcionais para a manutenção das necessidades básicas. Posso me movimentar e falar, mas o acesso ao banco de dados e outras coisas menores está comprometido. Por fora, meu corpo continua normal, exceto pela parte traseira, onde a pele sintética ficou ralada pelo atrito.
Levanto, tentando entender o que aconteceu. Olhando ao redor, percebo-me numa estrada de terra. À minha direita vejo as silhuetas dos galpões, e à esquerda, vejo um… Droga. O zoom não funciona direito. Mas só pode ser o lixão interno da cidade, pelo que lembro do mapa e pelo que vislumbrei lá de cima. É uma estrada larga, com marcações de pneus gigantes. Provavelmente apenas uma via de ligação pouco utilizada. Está deserta agora.
A visibilidade aqui dentro da cidade é péssima, principalmente tão perto do muro, que tampa parte da minguante claridade do céu. A maior parte de Alpha-12 é iluminada artificialmente, embora essa estrada não seja. Mesmo assim, percebo os postes gigantes plantados ao meu redor, relativamente longe um dos outros. Não são fontes de luz, mas redes de segurança. Desaceleradores gravitacionais. É claro. Aqui é área industrial, uma área de tráfego aéreo intenso. Alpha-12 foi lotada destes postes intimidadores, salvo poucos locais renegados da periferia, desde que o transporte aéreo começou a substituir o terrestre. Ainda estamos no início, mas ninguém quer naves caindo pela cidade, esmagando pessoas, veículos e propriedades. Não que seus efeitos sejam suaves. Afinal, a intenção não é salvaguardar com sutileza o que cai, e sim proteger o que está embaixo.
Alcanço as roupas rasgadas no chão, ciente de que estar pelado não é um protocolo social adequado, mas elas não servem para mais nada. Apanho as moedas e saio da estrada, me afastando cerca de duzentos metros pela terra infértil, e começo a andar na direção do lixão. Seguir na outra direção seria perigoso, não posso deixar que me vejam. Como eu explicaria ter chegado aqui? Sigo mancando com a perna direita; uma das juntas metálicas principais está danificada. Em cerca de quinze minutos alcanço o começo do mar de lixo. É incrível a quantidade que a cidade produz, e esse aterro enorme é seu destino final, antes do fatídico despejo.
Junkyard by Superior Dragon Love at deviantart.com
Fico um tempo parado, olhando os dejetos empilhados à minha frente, e me lembro de que vivi no meio disso até minutos atrás. Me lembro de Andras e sua oficina. Devaneios. Não posso perder tempo. Começo a rodear o lixo procurando qualquer coisa que faça as vezes de roupa. Depois de descartar uma camisola e um macacão rasgado, acho uma calça enorme, grande o suficiente para caber um de mim em cada perna. Vai ter que servir. Pego a sobra da calça na cintura e amarro-a num nó para não cair, acomodando as moedas numa sobra funda de tecido. Pouco tempo depois acho uma camisa amarelada, curta demais, mas melhor que nada.
Sigo em frente, margeando o lixo, para longe do muro, na direção da cidade propriamente dita. Consigo ver lá em cima as desengonçadas naves-lixo indo e vindo, de tempos em tempos. Elas ficam estacionadas na outra ponta do território. As naves que operam dentro de Alpha-12 são menores e mais versáteis do que as que despejam tudo isso fora dos muros. De vez em quando ouço alguma delas descarregando seu conteúdo nas proximidades, mas a parede de dejetos me impede de vê-las. O caminho é longo. Demoro mais de uma hora para chegar na cerca super-reforçada que limita as terras da corporação.
Há uma rua asfaltada além da cerca, e em seguida várias construções gigantes. Fábricas e armazéns. A área industrial. O problema é que não posso destruir a cerca. Uma de minhas diretrizes básicas me impede de danificar propriedade alheia, a não ser que ameace de alguma forma a continuidade da minha existência ou a de algum ser humano. É muito alta também, cerca de cinco metros. E eletrificada. Tenho uma idéia e começo a vasculhar o lixo; em alguns minutos acho um pedaço de cobertor. Escalo o monte instável, ficando no topo mais próximo da cerca, a dois metros dela. Calculo a força necessária para jogar o cobertor e o ângulo para que ele fique preso no alto da cerca, algo que meu processador avariado ainda pode fazer, e arremesso-o, criando um ponto de apoio.
Procuro uma superfície mais estável na pilha, apoiando bem o pé esquerdo, cuja perna não está danificada, e pulo. Atinjo com o peito o topo da cerca e seguro com as duas mãos a barra superior sob o cobertor, impulsionando-me para o outro lado. Mergulho para a frente, o corpo apoiado na grade feito uma gangorra, e ao fim do movimento me solto, caindo de mau jeito no asfalto. Nada grave.
Esgueirando-me para a passagem entre duas construções imensas, sigo na direção das áreas povoadas. Espero que não demore muito para alcançá-las. Minha ansiedade é incontrolável.
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Do androids dream of electric sheep? by Ben Templesmith
Horas se passam e o dia dá lugar a noite quando finalmente acho um homem mais ou menos da minha altura, desnorteado e bêbado, e troco metade de minhas moedas pela roupa que ele tem no corpo. Ele faz a troca de bom grado, vestindo por sua vez os trapos que eu achei no lixo enquanto canta sobre as garrafas de pinga que vai comprar com o dinheiro.
Finalmente cheguei à área povoada mais periférica da cidade, que é vizinha da área industrial e respira boa parte de seu ar carregado e fedido. As ruas são sujas e mal-iluminadas. Infelizmente, devido à brutalidade dos desaceleradores gravitacionais, não consigo acessar o mapa, então só tenho uma vaga idéia de onde estou. Todos aqui andam com a cabeça baixa, mal reparando nos outros. Presumo que seja medo devido à alta criminalidade que reina na periferia. Seria bom achar um lugar seguro para passar a noite, perto de uma tomada e longe de encrencas.
Sigo a esmo até achar um estabelecimento modesto e iluminado numa esquina, a porta da frente aberta. Um casal sai dali, e um outro grupo, onde reconheço um andróide da minha série, o rosto idêntico ao meu, entra. Reparo na plaqueta acima da porta: Bar Automático. Um bar só para andróides.
Entro, levado pela curiosidade. O balcão largo e recheado de bancos fica no canto direito, ao fundo há um palco com as cortinas fechadas, e mesas apertadas lotam o centro do lugar. Agora está bem vazio, mas devido ao palco imagino que noites mais agitadas componham sua rotina de funcionamento. Dois mini-dróides garçonetes, que nada mais são que bolas planadoras enfeitadas, com uma grande bandeja acoplada em cima, circulam pelas três mesas ocupadas. O grupo que vi entrando ocupa uma quarta. Rodeando as mesas, tentando disfarçar as passadas defeituosas, sento num dos bancos. Três outros andróides ocupam bancos distantes. Uma garçonete do outro lado do balcão, ostentando um decote provocativo, se aproxima limpando um funil metálico com um pano umedecido.
- O que vai ser? – ela pergunta. Perco alguns segundos em satisfação silenciosa. Sou apenas mais um andróide qualquer, tentando se divertir na noite da cidade.
- Um trago do seu melhor óleo – respondo, audacioso.
Um dos clientes sentados nos bancos, um modelo feminino de cabelo liso, vira quando falo, observando-me atentamente. Ela se levanta e anda na minha direção, ostentando um olhar indecifrável. Então senta-se no banco ao meu lado, pousando o copo no balcão, e diz, sorrindo:
- Olá. Você parece solitário. Gostaria de um pouco de companhia?
Um lugar seguro para passar a noite.
Heh.
Não custa tentar.