Inexorável – parte 5
por Cristiano Imada
root@system_adm: ./rotina_verificar_memória_permanente
Lendo e verificando arquivos…
Tempo estimado: 5 horas 20 minutos 50,234 segundos
0.1%…
Tempo estimado: 3 horas 10 minutos 32,736 segundos
40.5%…
ERRO ENCONTRADO [<arquivo corrompido>]=>
ARQUIVO:
@memória_permanente @interações @íris: {fcb6654t # 65,34º # 34,56º # 43,57º} + nome: [[marquinhos]] => marcos + 25 anos [estimado] + estado: [classe média/pesquisador/solteiro] – data: [inestimável] – local: [rua desconhecida [não mapeada] / {cidade velha}]
root@system_adm: ./conteúdo_corrompido arquivo ‘*$?’
CONTEÚDO DO ARQUIVO CORROMPIDO:
** peso: 70,456Kg
** altura: 1,8345 m
** energia_utilizada: 432 KW
** duração_interação: 1,2341232789 h
** interações_paralelas: nenhuma
** interações_subsequentes: nenhuma / início_hibernação
** arquivos_correlatos:
./marquinhos: alteração: adições e remoções de dados ->> “@experiências @marquinhos @alterações.v13”
./marquinhos/preferências: alteração: nenhuma
./marquinhos/preferências/humor: alteração: nenhuma
** tópicos_abordados:
- “nova namorada”
- “paixão” ((alteração :: definição ->> @comportamento_humano @sentimentos))
- “amor” ((alteração :: definição ->> @comportamento_humano @sentimentos))
- “esportes [corrida de palanadores]”
- “trabalho [engenheiro robótico]”
- “colegas de trabalho”
- “chefe [cruel/psicopata]”
** diálogos e análise de emoções in-time:
<<arquivo corrompido>>
+++PERIGO: INSTABILIDADE DE MEMÓRIA
—
- Hum… – Marquinhos demonstrava preocupação enquanto lia as mensagens na tela de seu computador de mão, que estava conectado ao peito aberto de Marlow. – É por isso que você não se lembra com detalhes do que conversamos no ano passado.
- Por quê, Marcos?
- Um dos arquivos da memória permanente está corrompido. Isso significa que a sua memória está se deteriorando. O que por sua vez significa que precisamos consertá-lo o quanto antes.
Marcos espreguiçou e bocejou. Já fazia algumas horas que ele estava ali. Sua sorte era que as centenas de flores que cobriam o chão suavizavam a rigidez do chão local, servindo como um assento mais aprazível ao tato, e também ao olfato.
- Que ironia. Agora que tenho os instrumentos de precisão, ainda faltam as peças para consertá-lo. – Marcos jogou para cima um pequeno objeto cilíndrico, que rodopiou no ar antes de retornar à sua mão.
- Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
Marcos sorriu.
- Me desculpe, Marlow. No final, eu não consegui ajudá-lo.
- Não precisa pedir desculpas, senhor. O erro foi meu.
Marcos não insistiu na conversa, considerando como erradas as escolhas de respostas do robô.
- Ainda me lembro de alguns tópicos da nossa última conversa. Você me disse que estava com uma nova namorada?
- Sim… nos casaremos daqui a dois meses.
- Que maravilhoso, Marcos!
- Sim… estou muito feliz… acho que encontrei a pessoa certa… Ela é inteligente, simpática, compreensiva e é a mulher mais linda que já vi em toda a minha vida! – Os olhos de Marcos brilhavam cada vez mais, enaltecendo sua futura esposa.
- Que homem de sorte você é! Encontrou sua cara-metade!
Marcos nunca abrira um sorriso tão largo.
- Veja Marlow, esse é um holograma dela.
Marcos retirou do bolso um holoprojetor, que a um apertar de botão emitiu uma imagem tridimensional no ar, revelando uma mulher abraçada com Marcos. Ela possuía cabelos longos e azuis, olhos castanhos e traços suaves. A imagem se movimentava repetidamente, mostrando Marcos beijando-a ciclicamente.
- O nome dela é Jaqueline. Já temos tudo planejado… Seus pais são membros fanáticos da seita cética, como o são todos os membros, e insistem que façamos uma cerimônia de acordo com seus costumes. Então, depois vamos nos mudar para um apartamento maior, e começar a morar juntos, talvez em um apartamento que esteja um ou dois andares mais alto em relação a onde moro atualmente. Vou comprar um carro voador mais espaçoso também, porque esperamos ter dois ou três filhos…
- Perdão, Marcos, mas não posso permitir que você fale mal dos membros da minha seita sem uma explicação lógica. – Uma diretriz obscura guiava Marlow.
- Hã? – Marcos despertou bruscamente de seus devaneios, um tanto atordoado com a intromissão repentina de Marlow.
- Você disse que considera os membros da seita cética como fanáticos.
- Espera aí, SUA seita? Você tem seita? Como assim? É permitido a robôs fazerem parte de uma seita ou ter religião?
- Não há diretrizes que me impeçam de adotar uma. Portanto, quando minha senhora me levou a um dos encontros da sua comunidade, eu acabei por adotar suas convicções, por serem lógicas e racionais.
- Quê? Mas robôs não tem fé!
- E não precisamos. Minha crença se baseia na razão, e não na fé cega – Marlow começava a repetir as palavras que ouvira há muito tempo atrás.
- Essa seita não passa do fruto da intromissão inadmissível da ciência, cuja matéria de estudo são fenômenos objetivos, dentro do campo subjetivo! É ridículo ver tantas pessoas de mentalidade do tamanho de um parafuso encarar a realidade apenas pelo prisma limitado da ciência! A ciência não tem capacidade e nem permissão para analisar questões subjetivas; como podem usá-la para negar a existência de Deus!?
- Quem está sendo fanático agora?
- E quem tem a razão?
- Não há razão no fanatismo.
- Mas é indubitável o fanatismo de todos os membros da sua supostamente “lógica e racional” seita. Você já viu como eles se comportam? Ridicularizam e humilham as outras crenças, sem respeito algum pelos sentimentos alheios, como qualquer fanático. Consideram sua verdade como a única verdade, como qualquer fanático. São incapazes de começar e terminar uma discussão sem ofender, como qualquer fanático. Isto sem levar em conta que, na prática, a maioria desses membros não possui qualquer capacidade lógica; apenas gritam ao vento como as outras crenças são ridículas, sem embasar suas opiniões, como qualquer fanático!
- Então embase a existência de Deus – essa frase vinha da memória de uma discussão travada durante uma das palestras conferidas a potenciais novos membros. Talvez se Marlow tivesse falado “exatamente como você está agindo”, teria contra-argumentado melhor. Mas a memória de um argumento desse tipo estava um pouco mais distante no meio dos milhões de arquivos.
- Esta é a questão! Ele está na cabeça do homem, é uma crença, é subjetivo. Nunca será vista sua manifestação no mundo físico, não é possível refutá-lo com argumentos e análises puramente objetivas! Concordo que é errado esperar que o Todo-Poderoso desça de um trono nos céus e faça milagres mundo afora, mas nem por isso ele vai deixar de existir dentro do coração e da mente das pessoas!
- Então, se ele não se manifesta no mundo material, ele não está na realidade, portanto não existe – essa frase vinha de um outro debate, envolvendo um dos líderes da religião.
- Você ainda não percebeu? A realidade é apenas uma convenção construída por um grupo, e se a realidade do seu grupo é tão limitada, percebendo apenas o mundo material, então tenho pena de você. – Uma idéia para pôr fim na discussão veio do fundo da mente de Marcos. – Se o que não se manifesta no mundo material não existe, então onde está a sua promessa? Quantos quilos ela tem? Quanto calor ela irradia em ondas infravermelhas? Qual a sua aceleração?
Marlow calou-se, não se lembrando de qualquer argumento que contra-atacasse o último argumento de Marcos, que por sua vez, sem saber, acabara de debater sozinho contra os argumentos dos líderes da seita, apesar de simplificados.
- A sua promessa está na sua mente, Marlow. Mesmo não sendo composta por neurônios, e sim por transistores, ainda assim a sua promessa existe dentro de seu mundo interior.
- O ponto de Roberto era que a questão não é acreditar em um deus, mas sermos bons independente da religião – Marlow insistiu. – Foi essa a sua conclusão, logo após demonstrar as falácias de apelo à força e de falsa dicotomia da aposta de Pascal.
- E sem acreditar, o que seria de nós? Como viver sem acreditar que amanhã pode ser um dia melhor? Como viver sem acreditar que há uma razão superior, que nos preenche com um sentido? Como viver sem esperança? Ou você não tem até hoje um mínimo de esperança de que a sua senhora retorne?
A programação de Marlow não permitia que ele mentisse.
- Quando estou entrando no modo de hibernação, eu sempre espero que no ano seguinte você venha para conversar. Sei que é quase impossível ela ainda estar viva para vir até aqui. Seria ilógico esperar por isso, pois entraria em contradição com as leis biológicas dos seres humanos. Mas continuo aqui, porque não posso abandonar minha promessa. Mesmo que partisse do pressuposto de que ela não está mais viva, ainda assim eu prometi permanecer aqui até que ela retornasse, ou seja, ficaria aqui para sempre, se necessário. Podem se passar milhões de anos, pode Alpha-12 acabar em outra guerra nuclear, mas enquanto eu possuir energia e meu corpo estiver em condições, eu cumprirei minha promessa, e ficarei aqui, imóvel.
Marcos ficou emocionado. Para ele, a primeira frase da fala de Marlow era uma demonstração de afeto inigualável, esquecendo brevemente que esse “afeto” era artificial. Além disso, a perseverança e o comprometimento de Marlow eram nobres e sobre-humanos. Por isso, pousou a mão direita no ombro esquerdo de Marlow e disse:
- Eu prometo que, enquanto eu possuir energia e meu corpo estiver em condições, eu virei aqui todo ano para revê-lo, Marlow.
- Eu fico muito grato, senhor – Marlow abriu um grande sorriso, expondo alguns micromotores, nervos de aço e outros componentes metálicos.