Alpha-12 – parte 2
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno da cidade até chegar à periferia, onde perambulando a esmo encontra um bar exclusivo para andróides. Lá, preocupado com um lugar para passar a noite, um andróide de modelo feminino começa a puxar conversa.
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Ela fecha a porta de casa. A tranca automática nos isola de vez do mundo lá fora.
- É… um belo lugar – digo, sem realmente perceber nada de mais. A sala de estar é grande, tem um sofá de três lugares em frente a uma TV. Enquanto tento encontrar outras palavras para quebrar o silêncio que se estende desde que saímos do bar e entramos no carro, e que se insinua de forma meio incômoda, ela me agarra e me vira, e antes que eu possa reagir sua boca se encontra com a minha. Ficamos com os lábios espremidos um contra o outro por uns cinco segundos. Eu não me mexo.Percebo que ela fechou os olhos. Depois do que parece uma eternidade ela se afasta, abrindo-os.
- Desculpa se te assustei. Às vezes sou meio impulsiva…
- Na-não – digo, gaguejando. – Não se preocupe, não fiquei assustado.
- Que bom – ela se agarra em mim novamente, me empurrando para trás. Eu quase caio, tropeçando no tapete entre o sofá e a TV, mas ela me segura, e me joga no sofá. Então começa a desabotoar a camisa. Eu não sei se deveria esperar por isso. Não tenho a mínima idéia do que fazer. Seu nome é Kátia, e ela é um modelo JZER 5.7. No meu sistema de análise baseado em convenções humanas, ela se sai entre “maravilhosa” e “capa de revista”: 1,68 m, 55 kg, cintura fina, quadris largos, bunda rechonchuda e seios fartos. Seu rosto é delicado; o nariz fino, a boca larga e carnuda e os olhos fundos e pequenos, misteriosos. O cabelo preto liso vai até os ombros. – Você me quer? – ela diz, comprimindo os olhos e mordendo o lábio inferior. Eu demoro um pouco pra perceber que ela está falando comigo.
Upskirt Stripping by fst1979 at Deviantart.com
- Ah. Sim, claro.
- Você… me quer mesmo?
- Unhun.
- Hum, que delícia – ela tira o sutiã e joga-o na direção oposta da camisa. Seus seios são redondos e alongados em cima, em formato de pêra. Parece certo eu dizer algo agora.
- Você é tão… simétrica. Sim, simétrica. Tudo nas proporções adequadas – heh. Talvez eu entenda um pouco do gingado.
- Oh, querido, que bom que você acha isso – ela fala, tirando a calça. Quando está apenas de calcinha, pára de se despir e coloca as mãos na cintura, olhando para mim, completamente sem reação esparramado no sofá, e vira a cabeça de lado. – Querido, você já fez isso antes?
Como eu gostaria de poder mentir. Apenas balanço a cabeça.
- Oh, meu bem, me desculpe. Eu supus que você já tivesse. Desculpe se estou indo muito rápido.
- Não, já disse que não há problema. Talvez você pudesse… me ensinar. Eu não tenho nada do tipo programado.
- Ora, então você está muito desatualizado! Há quanto tempo você não atualiza sua interface? Bom, não se preocupe, eu posso lhe mostrar. Você pode começar tirando as suas roupas.
- Certo – digo, me levantando, começando a tirar as roupas sujas e fedidas do mendigo. Ela não pareceu se importar com elas em nenhum momento. – Kátia, você já fez muito disso antes?
- Oh, sim, muitas vezes. Por quê?
- Não, nada. Você… está programada para fazê-lo sempre?
- Esporadicamente. É uma diretriz relacionada com o ambiente de trabalho. É o tipo de coisa sobre o que as humanas que trabalham comigo costumam conversar, e eu preciso ter algo sobre o que falar também, entende? Você está tendo alguma dificuldade com a calça?
- Não, não. Tudo bem – digo, finalmente desabotoando a calça.
- Oh – ela diz, olhando entre minhas pernas.
- O quê? Ah sim, me desculpe, não estou usando cueca.
- Não é isso, querido, é que você… não tem o implante – ela aponta para a área lisa de pele sintética que junta minhas pernas, onde num ser humano haveria algo deveras diferente.
- Bom, me desculpe… Você esperava que eu tivesse?
- Não, não. Andróides com implantes são raríssimos, eu nunca cheguei de me envolver com um que tivesse – ela abaixa a calcinha por suas pernas torneadas, tirando-a por um pé e depois pelo outro, chutando-a para o lado em seguida. Eu noto a mesma característica em seu corpo. – Eu não tenho também – ela diz, olhando sua área hipoteticamente genital.
- Oh – eu digo, surpreso. – Me perdoe, mas você ficou frustrada quando percebeu que eu não tinha o implante?
- Não, querido. Eu simplesmente me empolgo demais. Curiosidade, pura e simples. Eu sei que as chances de eu encontrar um andróide modificado são mínimas. Não leve a mal.
- De forma alguma. E agora? – digo, pelado, de pé em frente a ela, pelada também.
- Vamos para o quarto – ela pega minha mão e me guia até o fundo da sala, onde abre uma porta que eu não percebera antes. A luz liga automaticamente quando entramos, e eu vejo um cômodo pequeno, com uma cama de casal, um armário embutido e uma outra porta, esta aberta, que dá num banheiro anexo ao quarto. Aos pés da cama, ela me abraça ternamente e encosta sua boca novamente na minha. Ficamos imóveis por outros desconfortáveis segundos, as bocas encostadas. Depois de um tempo ela coloca a mão atrás de minha cabeça, e começa a coçá-la. Procurando em meus registros, de acesso meio débil devido à parada brusca na queda mais cedo, cortesia dos desaceleradores de gravidade, eu reconheço o ato como carinho. Outra característica humana de afeto. Quando resolvo copiá-la, ela se afasta, encerrando o beijo. Então me empurra na cama. Eu caio no colchão, desconcertado. – Você gosta de mulheres que tomam a iniciativa? Porque eu posso te dominar e fazer você perder a cabeça. Ou algo do tipo.
- Sim, pode ser – digo. Ela pula em cima de mim, fazendo a cama balançar.
- Você… quer tocar meus seios? –diz, olhando nos meus olhos com um sorriso malicioso.
- Tudo bem – sentada em meu peito, ela leva minhas mãos aos seios. Eu os tateio, sentindo suas formas e contornos, apertando-os suavemente. – São macios. E firmes – com os dedos, analiso os bicos rosados, apertando e empurrando de leve. – Eles são idênticos? Quer dizer, aos das mulheres humanas.
- Perfeitamente idênticos. Uma humana com um par de seios como esse seria de “de parar o trânsito”, como dizem.
- Entendo – acaricio-os por mais alguns segundos. – E agora?
- Agora eu costumo gemer. Sabe como é, os vizinhos – ela começa a emitir ruídos estranhos. São eufóricos, animalescos e desconcertantes. – Me acompanha, Cinco Meia Oito!
- Claro – começo a imitar seus gemidos. Com minha voz padrão eles soam bem mais graves. Ficamos nisso por uns dois minutos.
- Eu também costumo pular na cama. Parece que estamos fazendo mil loucuras em cima do colchão.
- Por quê alguém faria mil loucuras em cima do colchão?
- Não pergunte pra mim, só sei que fazem. Vamos, levante! – ela me puxa e começamos a pular. Os pés da cama arranham o chão, a base treme. Ela volta a gemer, e eu faço o mesmo. – Seu safado! Vai! – Isso me pega completamente de surpresa. Fico imaginando o que os vizinhos pensam de Kátia, se são humanos ou andróides, e se ela faz isso sempre. Ela me cutuca, indicando que devo responder algo.
- Sua… Seu cabelo é muito bonito!
- Ai, ai! Você me deixa louca. LOUCA!!!
- Você… Você é muito simpática!
- Isso, isso, vai! Nossa, que máquina! Não pára!
- Eu não vou parar! Mas… – será que devo dizer isso? Ah, dane-se. – Mas minha bateria não vai durar muito!
Ela volta aos gemidos normais, e eu faço o mesmo. Depois do que parece ser um bom tempo, ela segura meus braços, cessando os movimentos, emitindo um gemido bem mais longo e alto que os anteriores. Eu a imito. – Então, é isso?
- Sim, basicamente. Gostou?
- Foi divertido – digo, me deitando ao seu lado na cama. Ela vai até a janela, que estava fechada, e abre-a. – Pra ventilar – diz.
- Ah.
- Cinco Meia Oito, você quer algo antes de nos deitarmos?
- Kátia, se possível, eu poderia me carregar em alguma tomada? Tenho apenas 18% de reserva energética. Eu não estava brincando antes.
- Claro, claro. Vou pegar uma extensão, assim você pode se carregar na cama mesmo, enquanto dormimos.
- Ótimo.
Ela sai para a sala. Eu me pego olhando ao redor. Agora, com a janela aberta, posso ouvir os sons da cidade, os carros lá fora, algumas vozes ao longe. Kátia mora num complexo residencial de uma das corporações, um dos conglomerados de funcionários. Me parece que seu nível de vida não é dos piores. Ela é uma secretária. Tem um carro bom, uma casa boa. É de um modelo novo e bem cuidada. Por que será que ela vai procurar por parceiros no Bar Automático? Ela poderia conseguir bons partidos, melhores que eu, pelo menos, em outros lugares. Imagino que haja bons andróides por aí, com empregos decentes e bons de papo. Ou talvez ela não se preocupe muito com isso. Afinal, aqui estou eu. Ela volta da sala com uma extensão, que liga na tomada abaixo da janela. Pluga a outra ponta na base da minha coluna, abre o armário, joga uma camisola semi-transparente sobre o corpo, apaga a luz e se deita ao meu lado.
- Boa noite, Cinco Meia Oito.
- Kátia, você já vai se desligar? O que acontece agora?
- Oh, querido, eu tenho que lhe explicar tudo, não é? – ela diz, virando-se para mim. A luminosidade que entra pela janela é quase nula, mas suficiente para enxergá-la. – Você dorme aqui hoje, amanhã pela manhã eu tenho que ir para o trabalho. E você terá que sair comigo, eu posso te deixar em algum lugar no caminho, já que você me disse que não tem casa. Mas é isso. Talvez possamos repetir o que fizemos hoje algum dia, mas eu gosto de pensar que sou uma andróide pra frente, que preza por novas experiências. Quem sabe não mudo de idéia no futuro? Espero que tenha sido bom pra você. Pra mim foi ótimo!
- Oh, ok. Entendi. Pra mim também, foi ótimo. Obrigado por me ensinar como as coisas funcionam.
- Não seja por isso, querido.
As expressões humanas são de uma precisão impressionante. “Foi bom enquanto durou” atravessa meus sistemas antes que eu comece a me desligar.
- Boa noite, Kátia.
- Boa noite, querido. E não se preocupe. Amanhã falarei horrores de você, garanhão.
