Alpha-12 – parte 3
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia, onde perambulando a esmo encontra um bar para andróides. Após uma noite romântica com um andróide modelo feminino e uma recarga de bateria, 568 desliga seus sistemas, ansioso pelo dia que se avizinha.
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- Até mais, querido.
- Até mais, Kátia. Obrigado pela carona – a porta se fecha e fico parado na calçada vendo seu carro deslizar pela rua até sumir de vista. Estou aqui de novo, sozinho, em Alpha-12. Agora minha bateria está carregada, e não preciso me preocupar com alimentação por um bom tempo. Mas estou quebrado, minha interface está comprometida e manco com a perna direita. Conserto é prioridade. Tenho que me fazer útil de alguma forma, e defeituoso num mar de andróides plenamente funcionais não me é vantagem alguma, somando-se a isso minha incapacidade de fugir da polícia num cenário hipotético distante mas não improvável. Meu atual estado é deplorável.
River of Gods
Mas isso parece sumir da minha cabeça quando, uma vez mais, me dou conta dos arredores. Transeuntes desviam de mim na calçada, sem disfarçar o azedume com o obstáculo plantado no meio do caminho. Atravesso a calçada e me encosto na parede da frente de um dos estabelecimentos que preenchem a rua, observando a infusão de pessoas transitando e os carros disputando espaço depois delas. Pedi a Kátia que me deixasse numa área mais habitada, e por mais que não fosse caminho ela fez esse favor de boa vontade. Talvez minha atuação na noite passada tenha sido melhor do que eu esperava. A periferia é vasta, e sei que estou bem longe do centro. Minha intenção não é chegar lá, de qualquer forma; o policiamento é maior, e esse fato por si só me apavora.
É engraçado. O que quer que tenha me arrastado para cá, a convicção sobrenatural que me guiou, parece ter desaparecido agora, não tendo sido substituída pelo sentimento de satisfação que os humanos dizem sentir quando alcançam seus objetivos ou coisa parecida. Mas estou aqui, enfim, e vou me preocupar com o que acontece a seguir, não com o que já aconteceu. Olho apra cima, pro céu que se vê além do domo energético que cobre a cidade, e vejo resquícios de claridade tentando infiltrar a barreira intransponível de nuvens barrentas carregadas de cinzas, sujeira e pó. A tênue claridade é impraticável aqui, mas numa rua comercial como essa os inúmeros postes iluminam satisfatoriamente, e daqui pro centro a iluminação pública só melhora. À noite, as luzes são reduzidas, emprestando à cidade uma sensação de descanso condizente com o horário de repouso natural da maioria dos humanos, reduzindo oportunamente o consumo de energia. Foi assim que enxerguei a cidade ontem, mas agora vejo-a em todo seu esplendor.
Muitos dos humanos andam com PoMos na mão, segurando-os contra a orelha, conversando e gesticulando. PoMo é a sigla e nome coloquial do Ponto Móvel, o pertence eletrônico mais importante dos cidadãos de Alpha-12. Além de possibilitar comunicação, por vídeo ou voz, com qualquer outro cidadão dentro dos muros da cidade, serve como documento pessoal, agregando todos os dados num único aparelho. A posse de um PoMo é direito nato de todo humano devidamente registrado nos arquivos públicos, e ele é concedido pelo governo quando a pessoa atinge os cinco anos de idade. Os robôs, obviamente, não podem ter PoMos. Percebo também alguns poucos andróides de modelos antigos, que destoam drasticamente da paisagem geral. Já os modelos novos, como eu, que se mesclam facilmente com os humanos, só são distinguíveis porque possuo uma imagem de reconhecimento para cada um deles armazenada em minha memória. A maioria das pessoas se veste de forma simplória, refletindo a situação econômica da área.
Uma mulher gorda de cabelos curtos, rebolando numa saia estampada com desenhos indefiníveis, atravessa a rua e caminha na minha direção. Ela passa ao meu lado e para em frente à porta do estabelecimento, que abre automaticamente. Me afasto um pouco para conseguir ler a fachada bandeirosa da loja, pintada acima da porta, que não havia percebido antes. “Pêlos e Penas”. Uma loja de animais domésticos. Animais robóticos, réplicas dos que viveram há muito tempo atrás espalhados pelo mundo, quando este ainda era verde e agradável. É como dizem ter sido, pelo menos.
Animal house shop front
A vitrine está repleta de espécimes variados, separados por grades e prateleiras. Vejo esquilos, camundongos, gatos, cachorros, patos, guaxinims, tatus, pássaros, e espremendo os olhos para enxergar o meio do lugar, numa gaiola à parte, até uma ovelha. Fascinante como os humanos sentem uma necessidade incurável de companhia.
Me afasto da loja, juntando-me à correnteza de pessoas andando de um lado pro outro, e subo a rua, reparando na fachada dos estabelecimentos, procurando por uma oficina, uma assistência técnica para andróides. Desviando-me da turba, chego ao primeiro cruzamento, em frente a uma faixa de pedestres, onde a lei indica que os carros parem, dando preferência aos pedestres. No centro, a maioria dos carros são novos, imbuídos dos sistemas de direção automáticos, que forçosamente respeitam as leis, mas aqui, na Cidade Velha, como chamam coloquialmente a periferia da cidade, a maior parte dos carros ainda podem ser operados manualmente pelos humanos, e a maioria transgride as regras com uma naturalidade invejável.
Um amontoado de pessoas espera na calçada para atravessar a loucura caótica que tornou-se o trânsito no horário comercial. Eu me junto a elas, e na primeira oportunidade escapulimos para o outro lado. Com mais alguns passos, ouço o barulho de metal amassando metal vindo da rua principal, e imitando uma multidão curiosa, viro a cabeça para verificar o ocorrido. Um acidente, bloqueando as duas pistas da rua. Três carros com amassados hediondos, entrelaçados pela inépcia no volante de um dos motoristas – ou todos. Um deles, um homem parrudo, deixa o carro gritando desafios para um velho de cabelos brancos escondido atrás do volante, que mal se mexe. A terceira motorista, uma senhora de aparência frágil, me parece em choque.
Continuo andando, aproveitando a paralização nas ruas para atravessá-las sem dificuldade. Em pouco tempo visualizo uma viatura policial, deslizando pelos céus com sua sirene escandalosa. O aeroplano, pintado com o símbolo do departamento de polícia, voa na direção do acidente e paira logo acima dos veículos batidos. Já estou distante, mas ainda consigo visualizar uma rampa abrindo-se do veículo e policiais descendo na rua para averiguar o ocorrido, com um último policial a bordo de uma pequena plataforma planadora controlando a multidão em volta. Se meu zoom estivesse funcionando, poderia averiguar a cena com muito mais detalhes.
Sigo por longos minutos, até que finalmente acho uma loja de assistência técnica, da Optimicom. Não é a empresa que me criou, mas eles devem saber informar onde posso achar uma da Tecnobótica. A porta da frente se abre quando me aproximo, e logo me vejo dentro de um grande salão com imensas fileiras de peças e componentes que se estendem até o fundo, as paredes decoradas com robôs inativos vestidos nas mais diversas modas humanas em voga. Um balcão largo separa os funcionários andróides dos diversos clientes, modelos da Optimicom, espalhados por toda a extensão do balcão. Noto alguns dróides com seus donos a tiracolo; os andróides normalmente vêm sozinhos às lojas de conserto, mas ocasionalmente os donos gostam de acompanhá-los, por um motivo ou outro.
Um atendente, vestido com o uniforme padrão azul, surge de uma das fileiras e me aborda com um gesto vago de cabeça.
- Como posso ajudá-lo, senhor?
- Estou procurando por uma assitência técnica da Tecnobótica, sabe onde posso encontrar uma?
- A 3,57 quilômetros daqui, senhor, sentido noroeste. Cruzamento entre as ruas Estôncio e Vale Castado. Não consegue acessar seu mapa?
- Exatamente.
- Bom, sugiro que o senhor conserte este problema o quanto antes. Tenho certeza que seu dono odiaria perdê-lo, incapaz de encontrar o caminho de volta para casa.
- É o que pretendo. Aliás, do que vocês precisam para consertar um dos seus modelos?
- Apenas do número de registro e aprovação de crédito do dono. Enviamos o orçamento no mesmo dia, após rápida análise. Acredito que a Tecnobótica utilize o mesmo processo.
- Número de registro?
- Sim, senhor. O número de identidade gerado pelo governo que indica sua afiliação a um humano.
- Claro, claro. Então ele é necessário para o conserto? Mesmo se o andróide tiver dinheiro para pagar por ele?
- Absolutamente. Não aceitamos moedas, apenas crédito, e só humanos possuem créditos. Além do mais, um andróide sem número é considerado fora-da-lei, e é crime prestar serviços a tais andróides.
- Hum… Tudo bem, obrigado pela atenção. Vou procurar a assistência da Tecnobótica.
- Sem problemas, senhor. A Optimicom agradece o seu interesse, e lhe deseja um bom dia!
Ótimo. Não conseguirei conserto tão facilmente quanto esperava. Saio da loja, andando a esmo, calculando o que fazer em seguida.
Market tutorial by Neisbeis at Deviantart.com
Me perco pelas ruas, admirando a arquitetura anárquica das lojas e casas da região, e logo chego ao que concluo ser uma feira, montada numa praça apinhada de pessoas. Tendas e barracas improvisadas, vendendo quinquilharias, tecidos, roupas, bijuterias, comes e bebes. Uma aglomeração humana de consumo desenfreado. Me enfio pelos corredores estreitos, admirando os produtos expostos em tablados improvisados sob os tetos tortos das barracas. Reparo em jovens vestidos com trapos, parecidos com os que uso agora, sentados em bancos e encostados em esculturas quebradas e sujas, com olhares aguçados. Párias da sociedade, relegados a segundo plano.
Ouço música, música produzida por um grupo de pessoas num palco improvisado com seus instrumentos percussivos. Não faz muito sentido para mim, a música. É só um conglomerado de sons, uma equação matemática traduzida em batidas. Mas os humanos que se amontoam em volta do grupo parecem gostar.
Perco bastante tempo apenas observando, aprendendo, assimilando. É sempre bom para um andróide ampliar seu repertório de comportamento humano. Embora eu saiba que, no fundo, tem que ser algo mais que isso. É como se estar aqui, rodeado de pessoas, me faça sentir… Satisfeito. Vivo. Parece fazer sentido eu aqui, no meio de tudo isso, por mais que não faça.
Perdido em devaneios, procuro uma barraca que vende roupas masculinas. Acho uma calça e uma camisa do meu tamanho, e pago por elas com parte das moedas, que começam a rarear. Não vão durar muito. No banheiro público, construído no meio da praça, tiro as roupas maltratadas do corpo e visto as novas. Ajeito o cabelo sintético e limpo a sujeira do rosto na pia. Agora sim, muito mais apresentável.
Assim, resolvo enveredar novamente pelas ruas. Mas antes que possa dar cinco passos para longe do banheiro, algo segura meu braço direito por trás, e me viro instintivamente.
Dominic Fortune by Howard Chaykin
- Você vai comigo pra delegacia – me diz, sem cerimônia, um policial humano de queixo largo e ossudo, apertando meu braço com força desnecessária.
paz ..gostaria de saber como faço para adiquirir autorização pra usar a imagem onde está
(Dark Alley by xmanhazel at Deviantart.com)
uma rua !
seria a Capa de um CD !
meu email é metanoiarap@hotmail.com