Alpha-12 – parte 5
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma noite romântica e algumas horas de passeio, é abordado por um policial, devido a uma inesperada denúncia. Em vias de ser levado à delegacia, o policial é distraído e 568 foge, mas antes que possa ir muito longe o policial consegue achá-lo.
—
O policial desce imperioso da moto, feito um grande caçador abatendo sua presa, o que não deixa de ser verdade. Não há tempo de correr; ainda que me levantasse, minha perna manca não me permitiria ir longe. Estou à sua mercê, e sei que agora minhas chances se esgotaram. A esperança, diriam os humanos, é a última que morre. Otimistas, até nos piores momentos.
- Fica quietinho aí, Kalca – ele pousa a mão no ombro do garoto sentado na garupa da moto. Todas as motos policiais têm mecanismos para imobilizar uma pessoa, em caso emergencial; normalmente os patrulheiros não levam infratores sob custódia, deixando isso para as equipes normais, que dispõem de aeroplanos com acomodações. Eles apenas supervisionam as ruas, chamando reforços sempre que necessário. Mas quando são obrigados a prender alguém, acionam os inibidores elétricos na moto, liberando tiras metálicas que prendem a pessoa ao banco do passageiro, incapacitando-a. Era assim que o moleque se encontrava, e ele gritou de dor ao sentir os dedos do policial afundarem sem necessidade na carne fina de seu ombro. – Aí está, Kalca, o pequeno maldito que estava com aqueles vândalos.
- Ele não fez nada de errado – digo, ciente de que ele fez, de certa forma. Mas há uma grande distância entre acusar e provar.
Big scary cop by ado at deviantart.com
- De fato, mas ele vai me dizer quem fez – aperta novamente os dedos. O moleque começa a entoar outro grito, mas leva um tapa forte na cabeça. O policial solta-o e vem na minha direção. – Levanta, Kalca. Que estado deplorável pra ser preso, não?
Enquanto levanto, desajeitadamente, atento à pistola em sua mão, vejo-o levar a mão livre ao comunicador na orelha. As poucas pessoas na rua sumiram. Os carros parecem evitá-la. Não é exagero dizer que os cidadãos da Cidade Velha evitam o logotipo da polícia a qualquer custo, como se todos aqui tivessem um segredo sujo para esconder.
- Oficial 3475 solicitando veículo para recolhimento de andróide para detenção. Um. Neutralizado. Posição no rastreador da moto. Sim, no aguardo – ele se aproxima e encosta na mureta de uma das casas. – Temos alguns minutos ainda, Kalca. Pena que eu só possa levar um na moto. Como é que você fugiu? Achei que os andróides não pudessem desrespeitar ordens policiais.
Não podem. Mas eu não sou um andróide. Quer dizer, eu tenho um corpo de metal, pele sintética, chips e placas, e um processador avançado. Tenho até as configurações de fábrica. Mas não sou um andróide. Porque não acredito que seja. Não sou louco. Só não sou andróide.
Melhor eu ficar quieto.
- Sabe, você poderia até ser inocente. Mas essa fuga deliberada e sem propósito o condenou à toa. Falando nisso, qual o seu número serial? – como se lembrasse repentinamente que esquecera de fazer algo muito importante, ele caminha até a moto e digita o número que eu não consigo impedir que saia pela minha boca. Parece que somos obrigados a dizer essa informação sempre que alguém pergunta.
- Hum. 42233568, você disse? Estranho, esse número não consta nos registros. Isso nunca aconteceu antes. Será que você está me dizendo o número errado? Deixe-me ver seu braço.
Eu sinto certo alívio ao ouvi-lo dizer que meu número não está nos registros. Mas o que isso quer dizer? Começo a levantar a manga da camisa, e ouço um tinido fino e de baixa vibração. Ao voltar a atenção para o policial, percebo um feixe vermelho intenso acertar-lhe o lado da cabeça, trespassando-a, cuspindo miolos, sangue e pele por um buraco idêntico no lado oposto, seu corpo esfacelando-se no chão em seguida. Imediatamente percebo um grupo de pessoas, três homens e duas mulheres, precipitando-se de uma esquina mais adiante. Todos têm pistolas laser nas mãos, e se aproximam cautelosos, olhando ao redor, para as ruas e casas, e, com um maior nível de preocupação, o céu. Uma das mulheres e um homem correm para a moto, encostando nela um dispositivo eletrônico que desarma as amarras que prendem o garoto. Empurram-no rua abaixo, instruindo-o para que corra.
Headshot by maulwurf08 at deviantart.com
Os outros três vêm até mim. A mulher se abaixa para verificar o policial morto, que convulsiona na calçada. Os dois param na minha frente.
- Você é um andróide de sorte, Kalca – diz o que corria à frente dos demais, um homem alto e barbudo, vestindo um colete com um símbolo estranho costurado na altura do peito, uma bola atravessada por um risco grosseiro. O outro homem me revista, apalpando meu corpo e roupa.
- Quem são vocês? Por que fizeram isso? – exclamo, espantado. A dupla que libertou o menino agora instala um outro pequeno dispositivo no painel da moto, as mãos mexendo habilmente em pequenos fios, alicates trabalhando.
- Limpo. Só algumas moedas – diz o homem que me revistou. A mulher na minha frente não abaixa a guarda por um segundo sequer enquanto perscruta o céu, inquieta.
- Deixe-as – diz ao homem. Então se volta para mim. – Demoraria tempo demais para lhe explicar, dróide.
- Pronto! – grita a outra mulher, terminando de mexer na moto.
- Vamos! – exclama em seguida o homem ao meu lado, preparando-se para correr.
- Considere isso uma nova chance – encerra o barbudo, enigmático.
- Mas… – as palavras morrem no meio do caminho enquanto vejo-os correndo, tão fugazes quanto quando vieram.
- Corra! – ouço um deles gritar para mim antes que desapareçam de vista.
Olho o policial morto na calçada, e a moto mais adiante. Que desgraça. O que aconteceria se mais policiais chegassem e me vissem aqui? Eu gravei tudo, gravei o grupo chegando, gravei o policial morrendo, o garoto fugindo. Tenho evidências para me inocentar. Poderia esperar aqui e até prestar um favor à sociedade… Tolo! Por que eu estava sendo perseguido, em primeiro lugar? O número de registro! Não posso correr esse risco novamente.
Começo a mancar, amaldiçoando pela milésima vez minha perna defeituosa, rezando para achar alguma forma de me reparar, de recobrar minha capacidade total. Quando dobro a esquina, ouço uma explosão. Virando a cabeça, vejo a bola de fogo e fumaça irrompendo de onde antes estava a moto, seus pedaços voando em todas as direções. Juntas titânicas! Tenho que dar o fora. Desço a rua, viro em outra e mais outra e sigo em frente. Ouço o longínquo barulho de sirenes vindo do local da explosão. Nada mais importa, apenas minha segurança. E o mais seguro é não ficar à vista.
Sigo avaliando tudo: as casas, os becos, as ocasionais lojas e mercadinhos. Ouço algumas pessoas conversando sobre a explosão. Um barulho de sirene próximo eriça meus pêlos sintéticos. Por todos os processadores do mundo! Eu preciso me esconder, agora!
Então, ao dobrar mais uma de infinitas esquinas, me deparo com uma plaqueta pendurada alta na parede de um dos estabelecimentos da rua. “Circuitos Dançantes”, leio. Outro bar de andróides, mais um em meio a tantos bares humanos. Posso sentir lágrimas artificiais aflorando em meus olhos. Abro a porta larga vagarosamente, puxando a extensa barra de ferro com cuidado, como se estivesse entrando numa divina oficina de reparos instantâneos, o sonho de qualquer andróide que se preze, sentindo que qualquer mínimo exagero comportamental pode me fazer acordar disso que só pode ser um sonho humano.
Steel dominion alley by kasai at deviantart.com
Sentado no balcão, pela segunda vez, em Alpha-12, gasto mais das poucas moedas pedindo um bom óleo, sentindo que a desativação final, o inferno, ou qualquer coisa que simbolize de forma dramática a morte ou o fim me passou de raspão. Pela segunda vez, nessa maldita cidade.