Alpha-12 parte 6
por Ricardo Santos
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568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma noite romântica e algumas horas de passeio, 568 é apreendido por um policial devido a uma inusitada denúncia. Antes que possa ser subjugado, uma gangue surge e, sem maiores explicações, mata o policial e deixa-o livre para seguir seu caminho. Abalado, 568 anda até achar outro bar para andróides, um refúgio temporário para pensar no que fazer em seguida.
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- Como é que é?
- Você deixa a música entrar em você, deixa ela te guiar, dominar os seus sentidos, ou melhor, suas conexões. É fácil, uma vez que se tenta. E a coreografia vem depois, quando você vê já está dando um show à parte; é só pra não destoar do resto do grupo. Acredite em mim, é uma forma de arte muito respeitada, e com razão! E os aplausos no final são mais que gratificantes. Todos eles dizem que poderiam fazer aquilo o dia inteiro! – diz Ramón, apontando o palco.
Dancing robots by Ken the artist at deviantart.com
Ali, sobre o reforçado tablado de ferro, vários andróides de diferentes modelos dançam em perfeita sincronia, sob um intenso jorro de luzes coloridas. Uma música agradável preenche completamente o bar, e todas as cabeças estão voltadas naquela direção, onde a magia entra em ação, de acordo com Ramón. E não são poucas cabeças. Mal há espaço para se mexer aqui dentro.
- Rapaz, se eu soubesse que seria assim tão bom, teria começado mais cedo! Nossa agenda já está lotada pelas próximas duas semanas! Você acredita nisso? É um nicho de mercado interessante, e bastante lucrativo! Opa, melhor eu ficar quieto quanto a isso, hein?
Demorou para eu tomar coragem. Passei o dia inteiro aqui, me recuperando dos últimos acontecimentos. E só ainda há pouco, a madrugada já se avizinhando, consegui iniciar um tímido diálogo com a garçonete, explicando minha situação da forma mais delicada possível, inventando que meu patrão tinha planos de me substituir em breve e que me ordenara achar um emprego. Uma história plausível. Ela me disse que não havia vagas no bar. O que era uma pena, já que eu parecia ser um andróide tão bom. Então me sugeriu esperar pela atração da noite, que começaria em poucos minutos, dizendo que conhecia o empresário responsável pelo grupo e que talvez ele tivesse algo para mim.
- Ah! Eu adoro aquilo que ele faz! Você viu, aquele ali da ponta? Uma pirueta perfeita, levanta a perna até a altura da cabeça, dá um soquinho com a mão esquerda e então uma piscadinha? Nossa, ele tem futuro! É isso que a maioria de vocês não entende: o segredo está nos detalhes…
Eu não sabia o que esperar. Uma companhia de teatro, um ventríloquo, um mágico, um comediante talvez, até uma banda ou um cantor de talento. Claro, eu não me vejo fazendo nenhuma dessas coisas; ainda assim a curiosidade e o sorriso singelo da garçonete colaram minha bunda ao banco. Mas um grupo de dança? Por essa eu não esperava.
Robot dance by recycledwax at deviantart.com
Ramón é o rotundo e exagerado empresário do grupo. A garçonete nos apresentou formalmente, e ao ouvir minha história, disse que sempre haveria vagas para os mais virtuosos, e que não seria ele o responsável por não dar a chance de estrelato a um talento nato. Claro, eu teria que ser testado para apreender se seria esse o meu caso, mas antes de qualquer coisa ele puxou outro banco, sentou-se ao meu lado e me aconselhou a prestar muita atenção no que aconteceria em cima daquele palco, que ele fez questão de apontar qual era com seu dedo gordo e oleoso, como se houvesse outro, dizendo que diante dos meus olhos o mais surpreendente espetáculo estava para começar.
E era realmente surpreendente. Surpreendentemente ruim.
- Agora você consegue entender o que eu disse? Que não é qualquer um que é capaz de executar aqueles passos com a graciosidade necessária? Precisamos do suíngue, do feeling, do mojo que corre em suas veias. Aliás, seus circuitos. Você entende, rapaz? Você consegue compreender a fineza e a classe do que estou lhe oferecendo aqui? É uma chance de ouro. Quem sabe um dia você não rouba o lugar do Misha ali? Ele é uma estrela em ascensão, mas todos sabemos como são essas coisas, sempre há alguém prestes a superar quem está no topo, não é? Então, o que me diz? – a essa altura ele já está em pé, suado de excitação, a mão estendida para mim feito um redentor, para saldar todas as minhas dívidas, resolver todos os meus problemas e me iluminar com sua infinita sabedoria. Observo sua mão, três anéis extravagantes em três dedos diferentes, e tento entender a amplitude do gesto.
Calculo as minhas chances. Preciso de emprego, desesperadamente. Esse homem é humano, pode me oferecer um emprego e um número de registro, um trabalho aparentemente honesto. Acabei de quase ser preso por causa desse problema. E se acabar preso, meu destino provável é trabalhar nas usinas subterrâneas para sempre. Aceitando a proposta e apertando aquela mão, estou teoricamente livre, mas em troca tenho que dançar como aqueles rídiculos andróides, me vestir do jeito que se vestem e aprender a coreografia. Claro, sou um andróide e não devo me preocupar com essas coisas. Não tenho opinião, não tenho pudor. Também não tenho intuição. Mas não sou um andróide, e digo que a vergonha fala mais alto. E minha intuição me diz para não confiar nele.
Entendeu? Nem eu.
- Não estou interessado.
Sua boca despenca. Ele olha pra garçonete, estupefato, como quem diz: não, esse infeliz não acabou de negar a paradisíaca alternativa que eu lhe ofereci, por favor me belisque para que eu acorde desse pesadelo horrível em que um reles andróide quebrado diz não para o inigualável Ramón, o empresário mais bem-sucedido dos grupos robóticos de dança de Alpha-12, o futuro magnata, o adorado e idolatrado ícone empresarial do momento. Então a garçonete comprime a boca, deita levamente a cabeça e levanta os ombros, franzindo o cenho, como quem diz: o que posso dizer, senhor, ele não sabe a magnitude da proposta que está recusando, tampouco que o senhor é o inigualável Ramón, o empresário mais bem-sucedido dos grupos robóticos de dança de Alpha-12, o futuro magnata, o adorado e idolatrado ícone empresarial do momento.
Fat guy by Heroboy at deviantart.com
- Pois bem – retruca Ramón ríspido, recolhendo a mão ofendido, virando-se com violência na direção dos bastidores.
Fico ligeiramente perdido. A garçonete me serve uma nova dose de óleo com um sorriso no rosto.
- Desculpe, mas ele sempre faz isso. Achei que você talvez pudesse se interessar.
Agradeço, contente por saber que eu não era o único enxergando uma enganação mal-engendrada.
- Qual era a dele?
- Ah, ele é o empresário do grupo. Mas está começando, é um dos primeiros shows e ainda não tem autorização para registrar mais andróides. Todo o grupo tem que andar às escondidas até ele conseguir. Menos o Misha. Ele é o único registrado.
- E por que você pediu pra eu falar com ele?
- Bom, você está procurando emprego, não está? Melhor que nada, pensei.
Malditos andróides. Por que não podem ter um pouco de malícia? Falam e agem exatamente como são ordenados, não toleram um mínimo de subjetividade, não calculam o resultado de suas ações a longo prazo. Nunca chegarão aos pés dos humanos se continuarem com essa inocência toda. Ainda bem que não sou um deles.
- Bom, obrigado de qualquer forma – digo, contrariado. – Sabe onde posso tentar conseguir um emprego, um emprego que me ofereça registro imediato e que não dependa de nenhum fator externo ou delongas, como esse? E repito, só estou procurando porque meu senhor me ordenou – se eu tivesse dito com essa clareza antes, talvez não tivesse que passar pelo impetuoso Ramón.
- Não, me desculpe.
Pago com algumas das poucas moedas que me restaram. Talvez eu devesse ter aceitado, talvez eu devesse confiar na dica da garçonete. Por mais que continuasse sem registro, estar sob a guarda de Ramón seria provavelmente mais seguro que andar por aí à deriva. Ele conhece a cidade. Ele sabe onde ir, onde não ir. Me arrependo da decisão. E mais uma vez comprovo minha teoria: não sou andróide. Eles não se arrependem.
Deixo o bar com dificuldade, desviando dos muitos robôs que lotam o moderado espaço. Saio para o ar frio da noite. Meu termostato ainda funciona. Nove graus celsius. Até que não está tão frio hoje, aqui dentro. Imagino lá fora, imagino Andras tremendo na oficina, sua pequena silhueta o dobro do tamanho devido aos casacos e trapos amontoados sobre si. Lembro de Frank, de Rex, da moto planadora. Como estarão eles, começo a divagar enquanto ando pela rua deserta.
E já na primeira esquina me arrependo pela segunda vez de não ter aceitado a oferta. Sinto algo tocar minhas costas e descarregar um pulso eletromagnético. A polícia de novo! Despenco às cegas na calçada. Da escuridão que engloba a outra metade da esquina quatro moleques e um Kalca surgem. Não é a polícia… Quem são eles? Os moleques olham ao redor, os olhos esbugalhados e vermelhos, enquanto o Kalca me pega nos braços, e retrocede para a escuridão da rua. Seguimos por alguns metros e viramos num beco que não seria possível achar se já não o conhecessem. Mais alguns metros para o fundo, dobramos novamente, e chegamos num pequeno cubículo cercado por paredes, um verdadeiro beco sem saída.
Gang by 0bo at deviantart.com
O Kalca me pousa no chão, enquanto um dos moleques retira do bolso um plug-in universal, com o qual pode acessar a interface de qualquer andróide. Juntas titânicas! O que mais pode acontecer comigo? O que eles querem? Não consigo falar ou me mexer, o pulso desligou todas as minhas funções motoras, embora eu ainda esteja consciente.
- Meio arriscado andar sozinho a essas horas, não acha? A Cidade Velha anda muito perigosa ultimamente – me diz o moleque com o plug-in. – Principalmente para andróides… – adiciona, ameaçador, avançando na minha direção.