Alpha-12 – parte 7
por Ricardo Santos
Anteriormente
568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma inusitada noite romântica, começa a desvendar a cidade mas quase acaba preso. Desesperado, procura refúgio num bar para andróides, onde recusa uma arrojada oferta de emprego como dançarino. Com ânimo renovado, deixa o bar e começa a andar sem direção, quando uma gangue de garotos auxiliados por um Kalca rapidamente acaba com sua alegria, imobilizando-o e levando-o para um beco sem saída, com intenções mais que suspeitas.
—
Dark Alley by xmanhazel at Deviantart.com
- Você tem sorte de ainda não terem descoberto como desligar as Três Leis sem estragar o processador. Imagina o dia que descobrirem isso, Kalca… Pegamos um andróide na rua, damos uma geral, ele entra numa casa qualquer e mata uma família inteira.
Claro, a indignação de certos grupos contra os andróides é manjada. A parcela mais pobre da população relegada à miséria, porque o que quer que eles faziam uma máquina qualquer pode fazer. É mais barato empregar máquinas e não há dor de cabeça. A competição é mais que injusta. 24 horas de produção diária, salário irrisório, sem férias, sem reajuste salarial, sem sindicatos, sem aporrinhação de qualquer tipo. É mais fácil culpar os andróides pela falta de emprego, e não focar na solução. Não que ela seja motivada. Simplesmente não há espaço para que a população de Alpha-12 se especialize e adentre o restrito mercado de trabalho. E os ricos não querem dividir seus espólios e proporcionar igualdade na distribuição de renda. Quanto mais alto morarem, melhor. Os grupos revoltosos formam pequenas gangues, focos desorganizados, tentando retaliar na mesma medida que se sentem retaliados.
Mas esses garotos, esses moleques? Não há ideologia aqui, só a reprodução do que vêem fazendo por aí, do que seus pais fazem, parte do ritual necessário para pertencer à essa minoria excluída. Não há lógica alguma por trás de seus olhos vermelhos; apenas ira, ira em estado puro, força bruta procurando uma válvula de escape. Que calhou de ser eu.
- Não podemos transformar você numa máquina assassina, mas ainda assim a gente pode te inutilizar, sobrecarregar seu processador e queimá-lo, apagar seus dados, travar seu sistema. E colocar um vírus, claro. Um de desativação programada. Que tal um desse quando você estiver atravessando uma avenida movimentada? O que você prefere, Kalca? Hehehe. Deixa eu plugar logo essa bosta.
O Kalca dos garotos me vira de bruços e me larga na calçada. Sinto as ondas eletromagnéticas, emitidas pelos receptores táteis situados na pele sintética, converterem em linguagem computacional e compreensível o toque, me avisando que o moleque com o plug-in levanta minha camisa, inserindo-o numa das várias entradas que rodeiam o plug de carregamento, na base da espinha. Em segundos ele pode descarregar o que quiser em mim, e tudo que posso fazer é esperar, uma vítima impassível, aguardando a desgraça se abater sobre minha cabeça.
Ou não.
Apag–
…………………………000000001001011010011111001001010111restau00010r0011ando
–o e volto à vida, uma fração de segundo depois. Consigo mexer os dedos. Estou de volta.
Lanço o braço caído ao lado do corpo para trás, agarrando a surpresa mão do moleque junto do pequeno plug-in. Esmago tudo ao mesmo tempo, puxando, o plug deslizando para fora da entrada. Sinto o revestimento metálico do diminuto aparelho rachar e abrir, os ossos da mão quebrarem. Ouço o grito de dor enquanto levanto do chão com um impulso. Os outros três meninos me encaram, os olhos arregalados, apavorados. O Kalca observa -os, incapaz de tomar decisão sem consentimento. Eles apreendem a cena desconcertados, incapazes de assimilar a mão quebrada do amigo. Então entendo o espanto.
Um andróide não pode ferir um ser humano, sob qualquer hipótese. Essa é a lei primária da robótica. Todos são construídos com essa diretriz inalterável registrada no processador central, e não há como desativar essa função sem estragá-lo de forma irreversível. Eu acabei de ferir um ser humano.
Engulo o espanto. Um dos moleques também, despertando do devaneio.
- Pega ele, Kalca idiota! – grita enquanto corre para fora do beco, os outros dois em seu encalço. O menino com a mão quebrada se recolhe a um canto na escuridão.
Eu tenho mais com o que me preocupar agora. O Kalca é versão 14. Deve ser, pelo menos. A mesma que a minha. Mesma força, mesma resistência. Mas não estou completamente funcional. Minha perna manca é um agravante imperdoável. O lado bom é que os andróides não foram criados para brigar; a violência não consta em seus diretórios como ferramenta, como aplicação prática.
Não que não possam aprender rápido; ele avança para cima de mim feito um trator, as mãos estendidas à frente. Abaixo, me esquivando do agarrão e empurrando-o com uma cotovelada nas costas. Ele beija a parede. Não é só força bruta que ganha brigas. Malícia também conta.
Antes que possa se virar eu puxo seu pé direito com força. Desequilibrado, ele cai, mas do chão puxa meu pé também. O pé bom. O ruim está bambo o suficiente para me fazer despencar sem jeito, aparando a queda com os dois braços, que são varridos por uma rasteira bruta e certeira. Com um impulso mínimo ele monta em minhas costas, agarrando minha cabeça com as duas mãos e martelando meu rosto no chão. Uma, duas, três, quatro vezes… Um buraco começa a se abrir no cimento. Minha pele sintética esfolada começa a revelar o metal interno.
Numa manobra humanamente impossível, jogo o pé bom para cima, curvando minha coluna flexível num ângulo de 110 graus, contorcendo a perna e posicionando o pé na frente do pescoço do Kalca. É o seu próprio peso me fixando ao chão que me dá envergadura para lançá-lo para trás, para a parede final do beco, onde ele se esborracha e se recompõe antes que eu possa dizer algo. Mas é tempo suficiente para que eu levante.
Meu rosto está destruído. Minhas perícias de interação social passaram a ser nulas, me dizem os leitores interpretativos de aparência. Como vou me virar agora? O Kalca avança resoluto, enfiando um soco em meu peito que me lança para a parede do outro lado, antes que eu consiga aparar ou esquivar, esmigalhando a pele sintética e marcando-a com seu punho metálico. As pancadas reduzem cada vez mais minha funcionalidade. Como posso vencer desse jeito?
Então reparo no moleque espremido contra a parede ao meu lado, prendendo a respiração, abobalhado com a luta que se desenrola diante de seus olhos. Sim, claro. Por que não? Antes que o Kalca me alcance, planto os dedos no pescoço do moleque e aperto levemente. Ele geme. O Kalca pára.
- Diga a ele que pare. Imóvel – falo, a voz saindo sem que minha boca mexa, os micromotores da mandíbula quebrados.
- Pa-Pára, Kalca – decreta o moleque. Os braços do andróide caem, sua feição hostil desaparece. Me levanto sem soltar o garoto e rodeio o robô. Ele não desobedeceria o dono. Com um puxão na gola, rasgo sua camiseta. Na base da nuca percebo uma pequena proteção, uma placa grossa de metal fundida ao corpo, escondendo o botão de desligamento emergencial. Nosso ponto fraco. É proibido revesti-lo, mas seria ingenuidade acreditar que algo nesse Kalca e nos garotos está em concordância com a lei.
- Mande-o encostar naquela parede – digo novamente, ao que o garoto obedece, seus olhos marejados incapazes de disfarçar o medo. Quando ele poderia imaginar que um robô lhe faria isso? É fácil subjugar os que não podem revidar, não é, seu bostinha? Penso na quantidade de andróides que ele e seus amigos estragaram e manipularam, contando esse próprio Kalca na minha frente, e tenho vontade de fechar o punho e destroçar seu pescoço. Mas seria demais. Só de pensar nisso sinto uma inconsciente tentativa de desligamento percorrendo meus circuitos. Comporte-se como um andróide, Cinco Meia Oito.
Com o Kalca encostado na parede, começo a golpear o revestimento ilegal. São necessárias algumas pancadas bem dadas, fazendo-o afundar o peito no concreto e chacoalhar toda a base do prédio abandonado em que está escorado, mas finalmente a placa afunda o suficiente para acionar o botão, e ouço um ruído imperceptível para o ouvido humano quando o Kalca simplesmente desaba.
Relaxo o aperto. Livre, o moleque anda de costas até a parede oposta, massageando o pescoço, sem tirar os olhos de mim. Os meus não desgrudam dos dele, em contrapartida. Imagino que feição horrível eu ostento agora para que ele não disfarce a cara aterrorizada.
- Por que fez isso, moleque estúpido? O que eu fiz para– – de que adianta perguntar se já sei a resposta? E não posso mentir para mim mesmo, tentando me convencer a descontar minha quase aniquilação no garoto. – Vá embora. Se recomponha e vá embora.
Ele não se mexe, incapaz de movimentar um dedo que seja.
- Vá! – grito, ao que ele reage sem pensar e corre, para longe do beco, para junto de seus amigos, onde quer que estejam.
Fico só, ao lado da carcaça desativada do Kalca. Reparo nas paredes quebradas, no chão afundado… Será que passei por tudo pelo que passei para chegar aqui e me deparar com isso? O que pode existir de mais no meu desejo simplório de conhecer a cidade, de viver aqui? Quase ser preso, infectado, destruído… Que outras ameaças se espreitam nas próximas esquinas?
Completamente arrasado, deixo o beco me esgueirando pelas sombras da escuridão eterna da cidade, evitando os postes funcionais, como um pária procurando abrigo num deserto vasto que não pode esconder ninguém.
Juntas titânicas…
O que mais?
-
*dedicado a Dyolen Vieira, que não teve tempo de ler este e, infelizmente, não poderá ler os que virão
