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.capítulo 20

Alpha-12 – parte 8 e final

por Ricardo Santos

Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma inusitada noite romântica, começa a desvendar a cidade mas quase acaba preso. Desesperado, procura refúgio num bar para andróides, onde recusa uma arrojada oferta de emprego como dançarino. Com ânimo renovado, deixa o bar e começa a andar sem direção, quando uma gangue de garotos auxiliados por um Kalca rapidamente acaba com sua alegria, imobilizando-o e carregando-o para um beco, que acaba servindo de cenário para uma luta entre andróides sem precedentes. Com suas esperanças robóticas em frangalhos, 568 começa novamente a andar, sem intenção de chegar a lugar algum.

Post apocalyptic by Kasai at deviantart.com

Lixo.

Se a história desde minha recente ativação pudesse ser resumida numa só palavra, seria essa. Não só pela aplicação subjetiva, de sentido perjorativo, mas principalmente pelo sentido literal. Foi entre os restos de Alpha-12 que passei a maior parte do tempo,  e agora é aos restos de Alpha-12 que retorno.

Minha estrutura física está danificada além da conta. Desde a queda vertiginosa com que fui recebido na cidade tenho procurado ajuda, mas minha situação clandestina e a falta de sorte, para me utilizar duma expressão humana , conseguiram me manter longe de qualquer perspectiva favorável. Pelo contrário, o desfile de atrocidades que sucederam nos últimos dias parece indicar que a cidade está viva e não me quer aqui.

O clímax dessa confusão toda foi um embate sem sentido contra outro Kalca, onde sem muito mérito para deter o título de vencedor, aprendi que até robôs chegam ao fundo do poço. Sem muita opção, caminhei, ignorando os avisos de desligamento iminentes que meu processador avariado trazia à tona, até que o sistema motor entrou em contagem regressiva e irreversível, direcionando todo o sistema para o modo econômico de salvaguarda. Com os poucos segundos que me restavam, me esgueirei até um beco sem saída entulhado de lixo e me joguei sobre a pilha recente de dejetos, afundando sem muito sucesso em me camuflar com o ambiente. Com o sistema motor desativado, minha consciência artificial foi relegada a um estado de observação inativo.

O que acontece nesses casos é o seguinte: um aviso emergencial é enviado via PoMo para a pessoa ou empresa dona do andróide, e um segundo aviso de  recolhimento à Assistência Técnica da fabricante. Assim, nenhum andróide fica simplesmente largado no meio da rua, por um defeito ou acidente qualquer. Eles são recolhidos, consertados, quando possível, e então devolvidos às suas funções sociais, uma vez acertados os custos de seus reparos com a empresa responsável. O meu problema: não tenho registro, portanto não posso acessar a internet da cidade, e sem ter como notificar alguém, minha única alternativa é me esconder no meio desse lixo todo e esperar para ver o que acontece.

Pelo breve histórico que tenho até agora, não me surpreenderia se não fosse nada de bom.

SETE HORAS DEPOIS

A pequena nave-lixo se aproxima em silêncio. É a minha segunda visita nesse exílio indesejado. A primeira foi um mendigo espalhafatoso, que aliviou suas necessidades num canto e depois revirou toda a pilha de lixo atrás de comida, se contentando com alguma coisa embolorada que enfiou na boca, coxeando em seguida na direção da rua. A nave ativa seu holofote frontal para iluminar melhor o local e, com precisão cirúrgica, começa a revirar o lixo. Enquanto preenche seu pequeno compartimento interno, de 2,20m quadrados, pressionando os dejetos um sobre o outro, se depara comigo. Por um breve instante fica parada no ar, seus braços metálicos imóveis enquanto ilumina meu rosto. Sei que está acessando os relatórios de recolhimento das empresas cadastradas, como é feito de praxe sempre que uma delas topa com um andróide, e sei que não vai encontrar nada, me levando pro aterro interno para ser lançado novamente para fora da cidade.

Por um lado, talvez não seja lá uma má idéia. As chances são mínimas, mas Andras pode me achar novamente e me consertar. E à essa altura eu ficaria mais que satisfeito em levar uma existência tranquila do lado de fora, longe de toda a balbúrdia da cidade. Imagino como era para os humanos quando ainda podiam viver fora dos muros, longe da ameaça constante da radiação. Sei que muitos viviam isolados, afastados, em fazendas e propriedades rurais. Alguns por obrigação, pelo trabalho, mas muitos por opção. Posso entender porque, mesmo tantos anos depois, eles escolhiam viver longe de todo esse caos.

Enquanto calculo as chances de Andras me achar, agora muito maiores já que ele tem a moto e dois ajudantes, Frank e Rex, a nave-lixo sai de seu transe, vira o holofote para o lado e continua a recolher o lixo esparso. Ocupo muito espaço em seu interior, e posso ser facilmente carregado sobre ela. Por isso a nave continua limpando o beco imundo, tarefa que obviamente não pode ser concluída em apenas uma viagem, para então assentar-me sob seu teto, segurando-me com suas mãos metálicas e disformes e guiando-me até o aterro da empresa. Até torço por essa sequência lógica de eventos, já me visualizando dentro de uma das grandes naves-lixo, socado em seu compartimento espaçoso, atravessando um dos grandes tubos de descontaminação na fortificada muralha e então despencando, parte de um dos infinitos quadrados de lixo que chovem naquela paisagem desolada noite e dia.

Então percebo um humano se esgueirando para dentro do beco, cauteloso. É um homem grande e gordo, barbudo, sem cabelos na frente e no topo da cabeça, mas dono de uma extensa juba que rodeia os lados e termina num longo rabo de cavalo solto e desgrenhado, até o meio das costas. Vestido com um grande sobretudo verde-escuro sujo de graxa e botas pesadas de solado emborrachado, ele se aproxima sem fazer barulho. Diante da nave, que continua sua coleta de costas para o homem, ele agacha, alcançando no limiar do monte de sujeira um cano grosso de metal. Empunhando com as duas mãos, levanta-o acima da cabeça. Se pudesse eu gritaria, alertando a nave, mas não posso me mexer. O cano desce com força vertiginosa, acertando em cheio o quadrado metálico voador, que bate no chão com um lamúrio agudo e tenta ganhar altitude novamente, só para voltar ao chão com uma nova taquarada.

Dessa vez o holofote falha e desliga, e um pequeno fio de fumaça sobe da parte superior onde foi atingido. O homem larga o cano no chão e se dirige a mim, estirado sobre embalagens e pedaços de metal e comida.

– Sabia… – murmura. Puxando os arquivos de gravação de segundos atrás, percebo o rosto do homem observando a nave-lixo me escrutinando, parcialmente escondido atrás da parede que dá para a calçada. Minha empolgação com a perspectiva de ser levado daqui era tamanha que mal reparei no ambiente, sem atentar para o fato de que tal homem acabou de me privar dela.

Ele analisa meu corpo, deslizando os dedos pela superfície oculta pela roupa. Se surpreende com o amassado no peito, a marca do punho do Kalca, mas não parece se importar muito. Então me vira de lado e me tomba de bruços, repetindo o mesmo processo em minhas costas. Aparentemente satisfeito, ouço-o assobiar, e logo depois ouço passos pesados se aproximando.

– Pegue-o – diz o homem, sua voz pastosa e grossa ordenando o que só pode ser um andróide, que me levanta do chão e me joga sobre os ombros. Minha cabeça bate em suas costas e pende ali, balançando enquanto ele se move. Meus olhos biônicos captam o chão sujo e o fim de suas pernas, envoltas por uma calça preta de tecido grosso e sapatos simples de couro sintético remendado.

Deixando o beco, eles seguem pelas calçadas como se não tivessem acabado de danificar propriedade alheia, um crime punível com prisão. Não emitem palavras. Após quinze minutos, andando por ruas ora movimentadas ora tranquilas, passando por vários transeuntes, alguns cumprimentando o humano com um “E aí, Guido!” ou “Como vai, Guido?”, chegamos ao que percebo, pelo ângulo torto da calçada, uma esquina. Ouço uma porta eletrônica barulhenta se abrindo, e sou levado para dentro de um amplo espaço lotado de marcas de graxa no chão. Sinto um cheiro familiar. Finalmente sou largado sobre uma poltrona velha, a cabeça girando o suficiente para que apreenda o ambiente, se enterrando no encosto almofadado em seguida.

X-Men Divided We Stand 2 pg 27 excerpt by Chris Burnham

Estou numa oficina. O cheiro me lembra a de Andras, mas é diferente. O espaço é maior, embora não mais organizado. Várias carcaças de andróides e peças grandes pendem do teto, penduradas por ganchos de metal enferrujados. O chão está recheado de placas, chips, parafusos e outras quinquilharias, mas a bagunça está acumulada em pilhas, permitindo trilhas estreitas pelo lugar. Finalmente posso encarar meu captor com maior precisão, e enxergo as rugas se assomando ao lado de seus olhos, negros e profundos. A barba vai até o peito, um bolo preto e maltratado. O andróide, que acabou de me sentar, me contempla com feição impassível. É um modelo ultrapassado da Optimicom. Mas pelo que andei vendo na periferia, ainda é comum.

– Não te falei, Oito-doze-dois? Esse tá bonzinho. Vai dar pra usar quase tudo.

– Parabéns, chefe – responde o andróide com sua voz clara e genérica.

UMA HORA DEPOIS

Meus sistemas voltam à ativa e eu abro os olhos para me deparar com a cara pasma do meu captor. Seus olhos estão boquiabertos. Ele aponta para a TV instalada na parede a poucos metros de nós. Um extenso cabo ligado à base de minha coluna revela uma gravação da oficina de Andras. Nela, Andras anda de um lado para o outro procurando alguma peça para arrumar Frank.

– Aquilo… – ele me diz, apontando para a tela consternado, os olhos piscando rápido e a boca seca. – Não pode ser verdade… Qual o nome daquele homem?

– Andras? – respondo, surpreso por estar falando.

– Não… Ele foi preso. Como poderia estar lá for–

– Ele fugiu. É a única explicação lógica, e foi a que ele me deu. Você o conhecia?

– Conhecia? Essa oficina era dele! – suas mãos se fecham em torno do meu pescoço metálico mais rápido do que um exame superficial do homem poderia supor acerca de sua agilidade. – Que brincadeira é essa, Kalca? Que porra é essa?

– Brincadeira nenhuma. Pelo que posso deduzir, você tem conhecimento mínimo sobre andróides para saber que não podemos criar imagens. Simplesmente gravamos – os dedos afrouxam, e finjo certo alívio, embora o máximo de força que ele imprimisse à mão não fosse mais que um afago delicado em meu esqueleto metálico.

– Mas… Como pode alguém sobreviver lá fora? Sem proteção?

– Ele está lá há anos. Talvez devesse perguntar a ele.

– Não seja idiota, Kalca! Quem, em sã consciência, escolheria ir lá fora? Nem se quiséssemos! Você sabe muito bem que não temos portões convidando os cidadãos a um passeio. As únicas passagens são proibidas, vigiadas e guarnecidas.

– Isso não muda o fato de que ele está lá. Eu o conheci. Ele me contou sua história. Fugiu da prisão e erigiu uma oficina do lixo. Agora, tenho um pedido impo–

– Como foi que você chegou aqui, Kalca? Parece que passou por um moedor de lixo, seus sistemas internos estão uma lambança. E você levou um soco no peito. De um andróide. Que andróide bateria em outro andróide? Quem é você?

– Modelo K.A.L 14, Tecnobótica, número serial 42233568.

– Eu sei seus números, infeliz. Não estou falando disso. Você não tem registro. Sua memória interna está cheia de buracos. Períodos extensos de desativação. Isso não é normal. Você não é normal.

– Eu sei. Acredite, eu sei. Mas não tenho dados suficiente para elaborar uma resposta que seja–

– Seu desgraçado. Pare de falar como um andróide – ouvindo essa informação posso sentir um calafrio fantasma percorrer meus poros imaginários.

– Como assim?

Como assim, seu puto? Por que você está me fazendo de besta? Não bastassem os vídeos de Andras, você ainda tenta me tapear…

– Desculpe, senhor, mas não compreendo.

– Por que você não pára de fingir – ele diz, quase encostando seu nariz no meu, dando fortes batucadas com os nós dos dedos na minha cabeça –, e me diz por que aqui dentro tem um cérebro humano?

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.capítulo 19

Alpha-12 – parte 7

por Ricardo Santos

Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma inusitada noite romântica, começa a desvendar a cidade mas quase acaba preso. Desesperado, procura refúgio num bar para andróides, onde recusa uma arrojada oferta de emprego como dançarino. Com ânimo renovado, deixa o bar e começa a andar sem direção, quando uma gangue de garotos auxiliados por um Kalca rapidamente acaba com sua alegria, imobilizando-o e levando-o para um beco sem saída, com intenções mais que suspeitas.

Dark Alley by xmanhazel at Deviantart.com

– Você tem sorte de ainda não terem descoberto como desligar as Três Leis sem estragar o processador. Imagina o dia que descobrirem isso, Kalca… Pegamos um andróide na rua, damos uma geral, ele entra numa casa qualquer e mata uma família inteira.

Claro, a indignação de certos grupos contra os andróides é manjada. A parcela mais pobre da população relegada à miséria, porque o que quer que eles faziam uma máquina qualquer pode fazer. É mais barato empregar máquinas e não há dor de cabeça. A competição é mais que injusta. 24 horas de produção diária, salário irrisório, sem férias, sem reajuste salarial, sem sindicatos, sem aporrinhação de qualquer tipo. É mais fácil culpar os andróides pela falta de emprego, e não focar na solução. Não que ela seja motivada. Simplesmente não há espaço para que a população de Alpha-12 se especialize e adentre o restrito mercado de trabalho. E os ricos não querem dividir seus espólios e proporcionar igualdade na distribuição de renda. Quanto mais alto morarem, melhor. Os grupos revoltosos formam pequenas gangues, focos desorganizados, tentando retaliar na mesma medida que se sentem retaliados.

Mas esses garotos, esses moleques? Não há ideologia aqui, só a reprodução do que vêem fazendo por aí, do que seus pais fazem, parte do ritual necessário para pertencer à essa minoria excluída. Não há lógica alguma por trás de seus olhos vermelhos; apenas ira, ira em estado puro, força bruta procurando uma válvula de escape. Que calhou de ser eu.

– Não podemos transformar você numa máquina assassina, mas ainda assim a gente pode te inutilizar, sobrecarregar seu processador e queimá-lo, apagar seus dados, travar seu sistema. E colocar um vírus, claro. Um de desativação programada. Que tal um desse quando você estiver atravessando uma avenida movimentada? O que você prefere, Kalca? Hehehe. Deixa eu plugar logo essa  bosta.

O Kalca dos garotos me vira de bruços e me larga na calçada. Sinto as ondas eletromagnéticas, emitidas pelos receptores táteis situados na pele sintética, converterem em linguagem computacional e compreensível o toque, me avisando que o moleque com o plug-in levanta minha camisa, inserindo-o numa das várias entradas que rodeiam o plug de carregamento, na base da espinha. Em segundos ele pode descarregar o que quiser em mim, e tudo que posso fazer é esperar, uma vítima impassível, aguardando a desgraça se abater sobre minha cabeça.

Ou não.

Apag–

…………………………000000001001011010011111001001010111restau00010r0011ando

–o e volto à vida, uma fração de segundo depois. Consigo mexer os dedos. Estou de volta.

Lanço o braço caído ao lado do corpo para trás, agarrando a surpresa mão do moleque junto do pequeno plug-in. Esmago tudo ao mesmo tempo, puxando, o plug deslizando para fora da entrada. Sinto o revestimento metálico do diminuto aparelho rachar e abrir, os ossos da mão quebrarem. Ouço o grito de dor enquanto levanto do chão com um impulso. Os outros três meninos me encaram, os olhos arregalados, apavorados. O Kalca observa -os, incapaz de tomar decisão sem consentimento. Eles apreendem a cena desconcertados, incapazes de assimilar a mão quebrada do amigo. Então entendo o espanto.

Um andróide não pode ferir um ser humano, sob qualquer hipótese. Essa é a lei primária da robótica. Todos são construídos com essa diretriz inalterável registrada no processador central, e não há como desativar essa função sem estragá-lo de forma irreversível. Eu acabei de ferir um ser humano.

Engulo o espanto. Um dos moleques também, despertando do devaneio.

– Pega ele, Kalca idiota! – grita enquanto corre para fora do beco, os outros dois em seu encalço. O menino com a mão quebrada se recolhe a um canto na escuridão.

Eu tenho mais com o que me preocupar agora. O Kalca é versão 14. Deve ser, pelo menos. A mesma que a minha. Mesma força, mesma resistência. Mas não estou completamente funcional. Minha perna manca é um agravante imperdoável. O lado bom é que os andróides não foram criados para brigar; a violência não consta em seus diretórios como ferramenta, como aplicação prática.

Não que não possam aprender rápido; ele avança para cima de mim feito um trator, as mãos estendidas à frente. Abaixo, me esquivando do agarrão e empurrando-o com uma cotovelada nas costas. Ele beija a parede. Não é só força bruta que ganha brigas. Malícia também conta.

Antes que possa se virar eu puxo seu pé direito com força. Desequilibrado, ele cai, mas do chão puxa meu pé também. O pé bom. O ruim está bambo o suficiente para me fazer despencar sem jeito, aparando a queda com os dois braços, que são varridos por uma rasteira bruta e certeira. Com um impulso mínimo ele monta em minhas costas, agarrando minha cabeça com as duas mãos e martelando meu rosto no chão. Uma, duas, três, quatro vezes… Um buraco começa a se abrir no cimento. Minha pele sintética esfolada começa a revelar o metal interno.

Numa manobra humanamente impossível, jogo o pé bom para cima, curvando minha coluna flexível num ângulo de 110 graus, contorcendo a perna e posicionando o pé na frente do pescoço do Kalca. É o seu próprio peso me fixando ao chão que me dá envergadura para lançá-lo para trás, para a parede final do beco, onde ele se esborracha e se recompõe antes que eu possa dizer algo. Mas é tempo suficiente para que eu levante.

Meu rosto está destruído. Minhas perícias de interação social passaram a ser nulas, me dizem os leitores interpretativos de aparência. Como vou me virar agora? O Kalca avança resoluto, enfiando um soco em meu peito que me lança para a parede do outro lado, antes que eu consiga aparar ou esquivar, esmigalhando a pele sintética e marcando-a com seu punho metálico. As pancadas reduzem cada vez mais minha funcionalidade. Como posso vencer desse jeito?

Então reparo no moleque espremido contra a parede ao meu lado, prendendo a respiração, abobalhado com a luta que se desenrola diante de seus olhos. Sim, claro. Por que não? Antes que o Kalca me alcance, planto os dedos no pescoço do moleque e aperto levemente. Ele geme. O Kalca pára.

– Diga a ele que pare. Imóvel – falo, a voz saindo sem que minha boca mexa, os micromotores da mandíbula quebrados.

– Pa-Pára, Kalca – decreta o moleque. Os braços do andróide caem, sua feição hostil desaparece. Me levanto sem soltar o garoto e rodeio o robô. Ele não desobedeceria o dono. Com um puxão na gola, rasgo sua camiseta. Na base da nuca percebo uma pequena proteção, uma placa grossa de metal fundida ao corpo, escondendo o botão de desligamento emergencial. Nosso ponto fraco. É proibido revesti-lo, mas seria ingenuidade acreditar que algo nesse Kalca e nos garotos está em concordância com a lei.

– Mande-o encostar naquela parede – digo novamente, ao que o garoto obedece, seus olhos marejados incapazes de disfarçar o medo. Quando ele poderia imaginar que um robô lhe faria isso? É fácil subjugar os que não podem revidar, não é, seu bostinha? Penso na quantidade de andróides que ele e seus amigos estragaram e manipularam, contando esse próprio Kalca na minha frente, e tenho vontade de fechar o punho e destroçar seu pescoço. Mas seria demais. Só de pensar nisso sinto uma inconsciente tentativa de desligamento percorrendo meus circuitos. Comporte-se como um andróide, Cinco Meia Oito.

Com o Kalca encostado na parede, começo a golpear o revestimento ilegal. São necessárias algumas pancadas bem dadas, fazendo-o afundar o peito no concreto e chacoalhar toda a base do prédio abandonado em que está escorado, mas finalmente a placa afunda o suficiente para acionar o botão, e ouço um ruído imperceptível para o ouvido humano quando o Kalca simplesmente desaba.

Relaxo o aperto. Livre, o moleque anda de costas até a parede oposta, massageando o pescoço, sem tirar os olhos de mim. Os meus não desgrudam dos dele, em contrapartida. Imagino que feição horrível eu ostento agora para que ele não disfarce a cara aterrorizada.

– Por que fez isso, moleque estúpido? O que eu fiz para– – de  que adianta perguntar se já sei a resposta? E não posso mentir para mim mesmo, tentando me convencer a descontar minha quase aniquilação no garoto. – Vá embora. Se recomponha e vá embora.

Ele não se mexe, incapaz de movimentar um dedo que seja.

– Vá! – grito, ao que ele reage sem pensar e corre, para longe do beco, para junto de seus amigos, onde quer que estejam.

Fico só, ao lado da carcaça desativada do Kalca. Reparo nas paredes quebradas, no chão afundado… Será que passei por tudo pelo que passei para chegar aqui e me deparar com isso? O que pode existir de mais no meu desejo simplório de conhecer a cidade, de viver aqui? Quase ser preso, infectado, destruído… Que outras ameaças se espreitam nas próximas esquinas?

Completamente arrasado, deixo o beco me esgueirando pelas sombras da escuridão eterna da cidade, evitando os postes funcionais, como um pária procurando abrigo num deserto vasto que não pode esconder ninguém.

Juntas titânicas…

O que mais?

*dedicado a Dyolen Vieira, que não teve tempo de ler este e, infelizmente, não poderá ler os que virão

.capítulo 18

Alpha-12 parte 6

por Ricardo Santos

Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma noite romântica e algumas horas de passeio, 568 é apreendido por um policial devido a uma inusitada denúncia. Antes que possa ser subjugado, uma gangue surge e, sem maiores explicações, mata o policial e deixa-o livre para seguir seu caminho. Abalado, 568 anda até achar outro bar para andróides, um refúgio temporário para pensar no que fazer em seguida.

– Como é que é?

– Você deixa a música entrar em você, deixa ela te guiar, dominar os seus sentidos, ou melhor, suas conexões. É fácil, uma vez que se tenta. E a coreografia vem depois, quando você vê já está dando um show à parte; é só pra não destoar do resto do grupo. Acredite em mim, é uma forma de arte muito respeitada, e com razão! E os aplausos no final são mais que gratificantes. Todos eles dizem que poderiam fazer aquilo o dia inteiro! – diz Ramón, apontando o palco.

Dancing robots by Ken the artist at deviantart.com

Ali, sobre o reforçado tablado de ferro, vários andróides de diferentes modelos dançam em perfeita sincronia, sob um intenso jorro de luzes coloridas. Uma música agradável preenche completamente o bar, e todas as cabeças estão voltadas naquela direção, onde a magia entra em ação, de acordo com Ramón. E não são poucas cabeças. Mal há espaço para se mexer aqui dentro.

– Rapaz, se eu soubesse que seria assim tão bom, teria começado mais cedo! Nossa agenda já está lotada pelas próximas duas semanas! Você acredita nisso? É um nicho de mercado interessante, e bastante lucrativo! Opa, melhor eu ficar quieto quanto a isso, hein?

Demorou para eu tomar coragem. Passei o dia inteiro aqui, me recuperando dos últimos acontecimentos. E só ainda há pouco, a madrugada já se avizinhando, consegui iniciar um tímido diálogo com a garçonete, explicando minha situação da forma mais delicada possível, inventando que meu patrão tinha planos de me substituir em breve e que me ordenara achar um emprego. Uma história plausível. Ela me disse que não havia vagas no bar. O que era uma pena, já que eu parecia ser um andróide tão bom. Então me sugeriu esperar pela atração da noite, que começaria em poucos minutos, dizendo que conhecia o empresário responsável pelo grupo e que talvez ele tivesse algo para mim.

– Ah! Eu adoro aquilo que ele faz! Você viu, aquele ali da ponta? Uma pirueta perfeita, levanta a perna até a altura da cabeça, dá um soquinho com a mão esquerda e então uma piscadinha? Nossa, ele tem futuro! É isso que a maioria de vocês não entende: o segredo está nos detalhes…

Eu não sabia o que esperar. Uma companhia de teatro, um ventríloquo, um mágico, um comediante talvez, até uma banda ou um cantor de talento. Claro, eu não me vejo fazendo nenhuma dessas coisas; ainda assim a curiosidade e o sorriso singelo da garçonete colaram minha bunda ao banco. Mas um grupo de dança? Por essa eu não esperava.

Robot dance by recycledwax at deviantart.com

Ramón é o rotundo e exagerado empresário do grupo. A garçonete nos apresentou formalmente, e ao ouvir minha história, disse que sempre haveria vagas para os mais virtuosos, e que não seria ele o responsável por não dar a chance de estrelato a um talento nato. Claro, eu teria que ser testado para apreender se seria esse o meu caso, mas antes de qualquer coisa ele puxou outro banco, sentou-se ao meu lado e me aconselhou a prestar muita atenção no que aconteceria em cima daquele palco, que ele fez questão de apontar qual era com seu dedo gordo e oleoso, como se houvesse outro, dizendo que diante dos meus olhos o mais surpreendente espetáculo estava para começar.

E era realmente surpreendente. Surpreendentemente ruim.

– Agora você consegue entender o que eu disse? Que não é qualquer um que é capaz de executar aqueles passos com a graciosidade necessária? Precisamos do suíngue, do feeling, do mojo que corre em suas veias. Aliás, seus circuitos. Você entende, rapaz? Você consegue compreender a fineza e a classe do que estou lhe oferecendo aqui? É uma chance de ouro. Quem sabe um dia você não rouba o lugar do Misha ali? Ele é uma estrela em ascensão, mas todos sabemos como são essas coisas, sempre há alguém prestes a superar quem está no topo, não é? Então, o que me diz? – a essa altura ele já está em pé, suado de excitação, a mão estendida para mim feito um redentor, para saldar todas as minhas dívidas, resolver todos os meus problemas e me iluminar com sua infinita sabedoria. Observo sua mão, três anéis extravagantes em três dedos diferentes, e tento entender a amplitude do gesto.

Calculo as minhas chances. Preciso de emprego, desesperadamente. Esse homem é humano, pode me oferecer um emprego e um número de registro, um trabalho aparentemente honesto. Acabei de quase ser preso por causa desse problema. E se acabar preso, meu destino provável é trabalhar nas usinas subterrâneas para sempre. Aceitando a proposta e apertando aquela mão, estou teoricamente livre, mas em troca tenho que dançar como aqueles rídiculos andróides, me vestir do jeito que se vestem e aprender a coreografia. Claro, sou um andróide e não devo me preocupar com essas coisas. Não tenho opinião, não tenho pudor. Também não tenho intuição. Mas não sou um andróide, e digo que a vergonha fala mais alto. E minha intuição me diz para não confiar nele.

Entendeu? Nem eu.

– Não estou interessado.

Sua boca despenca. Ele olha pra garçonete, estupefato, como quem diz: não, esse infeliz não acabou de negar a paradisíaca alternativa que eu lhe ofereci, por favor me belisque para que eu acorde desse pesadelo horrível em que um reles andróide quebrado diz não para o inigualável Ramón, o empresário mais bem-sucedido dos grupos robóticos de dança de Alpha-12, o futuro magnata, o adorado e idolatrado ícone empresarial do momento. Então a garçonete comprime a boca, deita levamente a cabeça e levanta os ombros, franzindo o cenho, como quem diz: o que posso dizer, senhor, ele não sabe a magnitude da proposta que está recusando, tampouco que o senhor é o inigualável Ramón, o empresário mais bem-sucedido dos grupos robóticos de dança de Alpha-12, o futuro magnata, o adorado e idolatrado ícone empresarial do momento.

Fat guy by Heroboy at deviantart.com

– Pois bem – retruca Ramón ríspido, recolhendo a mão ofendido, virando-se com violência na direção dos bastidores.

Fico ligeiramente perdido. A garçonete me serve uma nova dose de óleo com um sorriso no rosto.

– Desculpe, mas ele sempre faz isso. Achei que você talvez pudesse se interessar.

Agradeço, contente por saber que eu não era o único enxergando uma enganação mal-engendrada.

– Qual era a dele?

– Ah, ele é o empresário do grupo. Mas está começando, é um dos primeiros shows e ainda não tem autorização para registrar mais andróides. Todo o grupo tem que andar às escondidas até ele conseguir. Menos o Misha. Ele é o único registrado.

– E por que você pediu pra eu falar com ele?

– Bom, você está procurando emprego, não está? Melhor que nada, pensei.

Malditos andróides. Por que não podem ter um pouco de malícia? Falam e agem exatamente como são ordenados, não toleram um mínimo de subjetividade, não calculam o resultado de suas ações a longo prazo. Nunca chegarão aos pés dos humanos se continuarem com essa inocência toda. Ainda bem que não sou um deles.

– Bom, obrigado de qualquer forma – digo, contrariado. – Sabe onde posso tentar conseguir um emprego, um emprego que me ofereça registro imediato e que não dependa de nenhum fator externo ou delongas, como esse? E repito, só estou procurando porque meu senhor me ordenou – se eu tivesse dito com essa clareza antes, talvez não tivesse que passar pelo impetuoso Ramón.

– Não, me desculpe.

Pago com algumas das poucas moedas que me restaram. Talvez eu devesse ter aceitado, talvez eu devesse confiar na dica da garçonete. Por mais que continuasse sem registro, estar sob a guarda de Ramón seria provavelmente mais seguro que andar por aí à deriva. Ele conhece a cidade. Ele sabe onde ir, onde não ir. Me arrependo da decisão. E mais uma vez comprovo minha teoria: não sou andróide. Eles não se arrependem.

Deixo o bar com dificuldade, desviando dos muitos robôs que lotam o moderado espaço. Saio para o ar frio da noite. Meu termostato ainda funciona. Nove graus celsius. Até que não está tão frio hoje, aqui dentro. Imagino lá fora, imagino Andras tremendo na oficina, sua pequena silhueta o dobro do tamanho devido aos casacos e trapos amontoados sobre si. Lembro de Frank, de Rex, da moto planadora. Como estarão eles, começo a divagar enquanto ando pela rua deserta.

E já na primeira esquina me arrependo pela segunda vez de não ter aceitado a oferta. Sinto algo tocar minhas costas e descarregar um pulso eletromagnético. A polícia de novo! Despenco às cegas na calçada. Da escuridão que engloba a outra metade da esquina quatro moleques e um Kalca surgem. Não é a polícia… Quem são eles? Os moleques olham ao redor, os olhos esbugalhados e vermelhos, enquanto o Kalca me pega nos braços, e retrocede para a escuridão da rua. Seguimos por alguns metros e viramos num beco que não seria possível achar se já não o conhecessem. Mais alguns metros para o fundo, dobramos novamente, e chegamos num pequeno cubículo cercado por paredes, um verdadeiro beco sem saída.

Gang by 0bo at deviantart.com

O Kalca me pousa no chão, enquanto um dos moleques retira do bolso um plug-in universal, com o qual pode acessar a interface de qualquer andróide. Juntas titânicas! O que mais pode acontecer comigo? O que eles querem? Não consigo falar ou me mexer, o pulso desligou todas as minhas funções motoras, embora eu ainda esteja consciente.

– Meio arriscado andar sozinho a essas horas, não acha? A Cidade Velha anda muito perigosa ultimamente – me diz o moleque com o plug-in. – Principalmente para andróides… – adiciona, ameaçador, avançando na minha direção.

.capítulo 17

Alpha-12 – parte 5

por Ricardo Santos

Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia. Após uma noite romântica e algumas horas de passeio, é abordado por um policial, devido a uma inesperada denúncia. Em vias de ser levado à delegacia, o policial é distraído e 568 foge, mas antes que possa ir muito longe o policial consegue achá-lo.

O policial desce imperioso da moto, feito um grande caçador abatendo sua presa, o que não deixa de ser verdade. Não há tempo de correr; ainda que me levantasse, minha perna manca não me permitiria ir longe. Estou à sua mercê, e sei que agora minhas chances se esgotaram. A esperança, diriam os humanos, é a última que morre. Otimistas, até nos piores momentos.

– Fica quietinho aí, Kalca – ele pousa a mão no ombro do garoto sentado na garupa da moto. Todas as motos policiais têm mecanismos para imobilizar uma pessoa, em caso emergencial; normalmente os patrulheiros não levam infratores sob custódia, deixando isso para as equipes normais, que dispõem de aeroplanos com acomodações. Eles apenas supervisionam as ruas, chamando reforços sempre que necessário. Mas quando são obrigados a prender alguém, acionam os inibidores elétricos na moto, liberando tiras metálicas que prendem a pessoa ao banco do passageiro, incapacitando-a. Era assim que o moleque se encontrava, e ele gritou de dor ao sentir os dedos do policial afundarem sem necessidade na carne fina de seu ombro. – Aí está, Kalca, o pequeno maldito que estava com aqueles vândalos.

– Ele não fez nada de errado – digo, ciente de que ele fez, de certa forma. Mas há uma grande distância entre acusar e provar.

Big scary cop by ado at deviantart.com

– De fato, mas ele vai me dizer quem fez – aperta novamente os dedos. O moleque começa a entoar outro grito, mas leva um tapa forte na cabeça. O policial solta-o e vem na minha direção. – Levanta, Kalca. Que estado deplorável pra ser preso, não?

Enquanto levanto, desajeitadamente, atento à pistola em sua mão, vejo-o levar a mão livre ao comunicador na orelha. As poucas pessoas na rua sumiram. Os carros parecem evitá-la. Não é exagero dizer que os cidadãos da Cidade Velha evitam o logotipo da polícia a qualquer custo, como se todos aqui tivessem um segredo sujo para esconder.

– Oficial 3475 solicitando veículo para recolhimento de andróide para detenção. Um. Neutralizado. Posição no rastreador da moto. Sim, no aguardo – ele se aproxima e encosta na mureta de uma das casas. – Temos alguns minutos ainda, Kalca. Pena que eu só possa levar um na moto. Como é que você fugiu? Achei que os andróides não pudessem desrespeitar ordens policiais.

Não podem. Mas eu não sou um andróide. Quer dizer, eu tenho um corpo de metal, pele sintética, chips e placas, e um processador avançado. Tenho até as configurações de fábrica. Mas não sou um andróide. Porque não acredito que seja. Não sou louco. Só não sou andróide.

Melhor eu ficar quieto.

– Sabe, você poderia até ser inocente. Mas essa fuga deliberada e sem propósito o condenou à toa. Falando nisso, qual o seu número serial? – como se lembrasse repentinamente que esquecera de fazer algo muito importante, ele caminha até a moto e digita o número que eu não consigo impedir que saia pela minha boca. Parece que somos obrigados a dizer essa informação sempre que alguém pergunta.

– Hum. 42233568, você disse? Estranho, esse número não consta nos registros. Isso nunca aconteceu antes. Será que você está me dizendo o número errado? Deixe-me ver seu braço.

Eu sinto certo alívio ao ouvi-lo dizer que meu número não está nos registros. Mas o que isso quer dizer? Começo a levantar a manga da camisa, e ouço um tinido fino e de baixa vibração. Ao voltar a atenção para o policial, percebo um feixe vermelho intenso acertar-lhe o lado da cabeça, trespassando-a, cuspindo miolos, sangue e pele por um buraco idêntico no lado oposto, seu corpo esfacelando-se no chão em seguida. Imediatamente percebo um grupo de pessoas, três homens e duas mulheres, precipitando-se de uma esquina mais adiante. Todos têm pistolas laser nas mãos, e se aproximam cautelosos, olhando ao redor, para as ruas e casas, e, com um maior nível de preocupação, o céu. Uma das mulheres e um homem correm para a moto, encostando nela um dispositivo eletrônico que desarma as amarras que prendem o garoto. Empurram-no rua abaixo, instruindo-o para que corra.

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Os outros três vêm até mim. A mulher se abaixa para verificar o policial morto, que convulsiona na calçada. Os dois param na minha frente.

– Você é um andróide de sorte, Kalca – diz o que corria à frente dos demais, um homem alto e barbudo, vestindo um colete com um símbolo estranho costurado na altura do peito, uma bola atravessada por um risco grosseiro. O outro homem me revista, apalpando meu corpo e roupa.

– Quem são vocês? Por que fizeram isso? – exclamo, espantado. A dupla que libertou o menino agora instala um outro pequeno dispositivo no painel da moto, as mãos mexendo habilmente em pequenos fios, alicates trabalhando.

– Limpo. Só algumas moedas – diz o homem que me revistou. A mulher na minha frente não abaixa a guarda por um segundo sequer enquanto perscruta o céu, inquieta.

– Deixe-as – diz ao homem. Então se volta para mim. – Demoraria tempo demais para lhe explicar, dróide.

– Pronto! – grita a outra mulher, terminando de mexer na moto.

– Vamos! – exclama em seguida o homem ao meu lado, preparando-se para correr.

– Considere isso uma nova chance – encerra o barbudo, enigmático.

– Mas… – as palavras morrem no meio do caminho enquanto vejo-os correndo, tão fugazes quanto quando vieram.

– Corra! – ouço um deles gritar para mim antes que desapareçam de vista.

Olho o policial morto na calçada, e a moto mais adiante. Que desgraça. O que aconteceria se mais policiais chegassem e me vissem aqui? Eu gravei tudo, gravei o grupo chegando, gravei o policial morrendo, o garoto fugindo. Tenho evidências para me inocentar. Poderia esperar aqui e até prestar um favor à sociedade… Tolo! Por que eu estava sendo perseguido, em primeiro lugar? O número de registro! Não posso correr esse risco novamente.

Começo a mancar, amaldiçoando pela milésima vez minha perna defeituosa, rezando para achar alguma forma de me reparar, de recobrar minha capacidade total. Quando dobro a esquina, ouço uma explosão. Virando a cabeça, vejo a bola de fogo e fumaça irrompendo de onde antes estava a moto, seus pedaços voando em todas as direções. Juntas titânicas! Tenho que dar o fora. Desço a rua, viro em outra  e mais outra e sigo em frente. Ouço o longínquo barulho de sirenes vindo do local da explosão. Nada mais importa, apenas minha segurança. E o mais seguro é não ficar à  vista.

Sigo avaliando tudo: as casas, os becos, as ocasionais lojas e mercadinhos. Ouço algumas pessoas conversando sobre a explosão. Um barulho de sirene próximo eriça meus pêlos sintéticos. Por todos os processadores do mundo! Eu preciso me esconder, agora!

Então, ao dobrar mais uma de infinitas esquinas, me deparo com uma plaqueta pendurada alta na parede de um dos estabelecimentos da rua. “Circuitos Dançantes”, leio. Outro bar de andróides, mais um em meio a tantos bares humanos. Posso sentir lágrimas artificiais aflorando em meus olhos. Abro a porta larga vagarosamente, puxando a extensa barra de ferro com cuidado, como se estivesse entrando numa divina oficina de reparos instantâneos, o sonho de qualquer andróide que se preze, sentindo que qualquer mínimo exagero comportamental pode me fazer acordar disso que só pode ser um sonho humano.

Steel dominion alley by kasai at deviantart.com

Sentado no balcão, pela segunda vez, em Alpha-12, gasto mais das poucas moedas pedindo um bom óleo, sentindo que a desativação final, o inferno, ou qualquer coisa que simbolize de forma dramática a morte ou o fim me passou de raspão. Pela segunda vez, nessa maldita cidade.

.capítulo 16

Alpha-12 – parte 4

por Ricardo Santos

Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia, onde encontra um bar para andróides e um lugar inusitado para passar a noite. No dia seguinte, perambulando pelas ruas e assimilando tudo nos mínimos detalhes, ele chega a uma grande feira, onde se admira com tamanha aglomeração humana. Mas seu tour é interrompido pela inesperada aparição de um grosseiro policial, que lhe ordena uma visita à delegacia.

Oh, merda. Merda. Merda. Merda.

– Deve haver algum engano, policial. Por que o senhor me quer na delegacia?

– Só fecha essa matraca metálica e me segue.

Aqui estou eu, saboreando o primeiro dia de verdade em Alpha-12, e antes que perceba estou sendo apreendido por um policial, prestes a ser levado para a delegacia, onde serei detido até que eles descubram que não tenho número de registro, o que me torna propriedade do governo, para fazer como bem entenderem. De lá provavelmente serei enviado para as minas subterrâneas, onde trabalharei no inferno em Terra até que minhas juntas enferrujem. Não. Não pode estar acontecendo comigo. O que eu fiz de errado? O que fiz para meu pesadelo se tornar realidade, e tão rápido?

– Policial, sem querer ser impertinente, mas você deve me dizer o motivo do apreendimento. Segundo consta no meu arquivo constitucional, até mesmo andróides têm o direito de saber o motivo de serem levados sob custódia, e todo oficial que não cumprir essa diretriz está sujeito às punições des–

– Pelo Criador Todo-Poderoso! – ele exclama, parando e gesticulando com a mão livre para o céu, enquanto a outra segura meu braço, e se volta para mim. – Todos os andróides são assim tão impertinentes?

– Mas, senhor, essa é uma questão pertinente em se–

– Cala essa boca, Kalca! – Kalca é o apelido do meu modelo, K.A.L. 14, pronunciado Kalcatorze, ou, mais comumente, pelo seu diminutivo. Como os modelos anteriores são normalmente substituídos pelos mais novos, e sendo o 14 o último da série, todos os que compartilham o meu rosto e o início do meu número serial, compartilham também esse apelido. – Pois bem, a título de me poupar de encrenca… – As pessoas ao redor começam a nos olhar, curiosas. Estamos numa feira apinhada numa praça em Alpha-12, e um cidadão/andróide sendo detido sempre constitui um espetáculo à parte. A platéia começa a se formar. – Comportamento suspeito, relacionado ao seu número de registro. Reportado por um funcionário da Assistência Técnica da Optimicom há alguns minutos. Satisfeito?

Juntas de titânio! Como puderam ser tão rápidos? Não acredito que eu armei essa para mim  mesmo. Ele continua andando, me levando para a entrada da feira. Já posso ver sua moto planadora estacionada ao lado de uma das tendas, a pouco mais de vinte metros.

Berna’s Hoverbike by LigerNekoka at deviantart.com

– Ei, policial! – uma voz esganiçada soa atrás de nós. O policial se vira e me puxa na mesma direção.

Um garoto sujo e vestido com trapos se aproxima, equilibrando-se sobre bamboleantes pernas finas.

– Que você quer, moleque?

– O senhor pode me dizer onde fica a rua Leônito Garcia? É que eu me perdi da minha mãe, e ela me disse para–

– Eu tenho cara de guia turístico, seu idiotinha? – Me surpreendo com a grosseria do policial. Que são eles senão protetores do povo? – Vá pedir ajuda pra um desocupado qualquer  – ele faz um gesto expansivo com o queixo, indicando a multidão ao nosso redor, ninguém em específico.

– Mas, senhor, o senhor não poderia apenas me apontar onde–

– Moleque – ele se aproxima do garoto, abaixando-se e emparelhando seu rosto com o dele. – Some daqui. Agora.

Spider man by thi prud at flickr.com

O garoto olha por sobre os ombros do policial, algo atrás dele, à distância. E, sorrindo, sem nenhum motivo aparente, se vira e sai correndo. O policial, confuso, me olha inquisitivo. Mas eu também não pude decodificar o comportamento do pequeno. Pelo menos, não até me virar novamente para frente.

A moto, há um instante limpa e reluzente, agora ostenta uma grande pixação em letras pretas garranchudas no corpo. “Porco”, é o que deduzo ser, desse ângulo. O policial também percebe, e varre os olhos ao redor da moto, mas não há nada de estranho, nada que indique um possível suspeito naquele mundaréu de gente. Então se volta, e nota a silhueta do moleque dobrando uma esquina à distância, para longe da feira. Soltando meu braço e puxando a pistola do coldre lateral da calça, ele dispara atrás da criança, mas não sem antes gritar, esganiçando raiva por entre os dentes:

– Fique plantado aqui! É uma ordem!

Eu o observo correr, seu porte físico lhe dando clara vantagem sobre o garoto. Mas isso não é a única coisa a ser levada em consideração. Isso aqui é um labirinto, de becos e vielas estreitos e recheado de coberturas que esconderiam um garoto com facilidade. Ele dobra a esquina num lampejo e eu fico sozinho, parado no mesmo lugar em que fui deixado. Desobedecer uma ordem direta e clara como a do policial é crime, punível sob qualquer circunstância. Olho ao redor enquanto espero pacientemente pelo seu retorno. Esquadrinhando as pessoas próximas da moto, percebo um grupo de moleques, antes absortos em alguma outra coisa, agora apontando-a e rindo. Relaciono-os facilmente ao que se encontra sob dura perseguição, por suas roupas rasgadas e idade aproximada. No bolso da bermuda de um deles, percebo um volume protuberante, em formato cilíndrico, e por mais que não disponha do meu zoom agora para calcular melhor isso, tenho o pressentimento de que ali dentro está a lata de tinta utilizada para cometer o crime.

Será  que contar ao policial que foram aqueles moleques os responsáveis aliviaria minha pena? Será que eu deveria segurá-los aqui até que retornasse? Mas isso vai contra a ordem que ele me deu. Ah, dane-se a ordem, é por um bom motivo. Mas… E se eu… Maldição! Em que estou pensando? De nada vai adiantar o que quer que eu faça! Uma vez comprovada a inexistência do meu número de registro, estou perdido. Não posso ficar aqui, à mercê daquele policial inescrupuloso. Ele vai voltar logo. Não posso ter  um fim assim, não depois do que já passei. Não. Me resigno. Já sou um fora-da-lei agora, não sou? Então darei logo o próximo passo, me tornando um transgressor da lei. Se eu for rápido, me distanciar bastante e tiver sorte, ele não voltará a me achar. E eu não devo ser uma preocupação tão grande numa cidade tão recheada de crimes e acidentes e confusão, certo?

Começo a andar rápido, já que a perna manca me impede de correr, na direção oposta à que o policial foi. Atravesso a feira, uma vez mais, concentrado em ir longe, em fugir. Maldita queda! Maldita queda que danificou meus sistemas, meu mapa acima de tudo, me fazendo andar a esmo nessa desgraça de formigueiro urbano. Será que os outros andróides têm ataques de raiva? Será que isso é um ataque de raiva ou uma simulação de um ataque de raiva? Será que essa minha vontade de esmurrar alguma coisa e de gritar até que meus pulmões artificiais murchem agourentamente não é real?

Megalopolis by MaxD Art at deviantart.com

Enquanto me enfio pelas ruas desconhecidas, procurando abrir distância, me atento para uma incomodação ininterrupta, um tipo de lampejo constante, um distúrbio interno. O que pode ser isso? Será outra parte danificada que não tinha percebido antes? Acessando um programa de análise de anomalias, que fica normalmente ligado sem que eu precise me preocupar, jogo o resultado em formato legível no meu campo visual, para não correr o risco de interpretar os dados erroneamente. Letras vermelho-gritante piscando e atrapalhando meu caminhar me lembram que estou cometendo um crime, meu corpo tentando acionar involuntariamente um comando que desliga meus sistemas motores. É claro que não funciona. Será que não funciona por que está quebrado ou por que eu não quero que funcione? Não importa. Não posso perder tempo.

Chego numa avenida movimentada. É melhor tentar me camuflar na multidão ou procurar ruas mais calmas? Aposto na segunda idéia. Desço um, dois, três, quatro quarteirões. Dobro à esquerda. Ruas residenciais, sem muita gente ao redor, poucos carros. Perfeito. Sigo em frente. Mas até onde seguir? Onde vou agora? Não conheço nada, ninguém. O que fazer?

Algo me atinge violentamente nas costas, com tamanha força que sou lançado cinco metros à frente, beijando o chão da calçada sem tempo de reagir. Me viro instintivamente, avaliando os danos à minha estrutura como mínimos; intenção não letal. Não vejo nada à primeira vista, mas logo noto a moto planadora perdendo altitude, descendo até minha posição vergonhosa, estatelado no chão. O “Porco” ainda não teve tempo de ser apagado, e o policial queixudo tem algemado e preso ao assento traseiro da moto o moleque que lhe abordara há pouco.

– Heh, Kalca. Será que minha ordem não foi clara o suficiente? – diz ele, mal escondendo a excitação no sorriso malévolo e expressivo.

Oh, merda.

.capítulo 15

Alpha-12 – parte 3

por Ricardo Santos

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Anteriormente

568, um andróide com sérios problemas de auto-afirmação, acorda sem memórias num mar infindável de lixo. Acolhido por Andras, o único ser vivo nas redondezas, passa a ajudá-lo e fazer-lhe companhia em sua arruinada oficina. Na desolada paisagem, o único ponto destoante é a redoma colossal que esconde a cidade de Alpha-12 em seu interior, a quilômetros de distância. Dominado por uma atração irresistível, consegue adentrar a “impenetrável” cidade com a ajuda de Andras e um bocado de sorte. Avariado, devido às condições desfavoráveis de sua entrada, ele manca pelo aterro de lixo interno até chegar à periferia, onde perambulando a esmo encontra um bar para andróides. Após uma noite romântica com um andróide modelo feminino e uma recarga de bateria, 568 desliga seus sistemas, ansioso pelo dia que se avizinha.

– Até mais, querido.

– Até mais, Kátia. Obrigado pela carona – a porta se fecha e fico parado na calçada vendo seu carro deslizar pela rua até sumir de vista. Estou aqui de novo, sozinho, em Alpha-12. Agora minha bateria está carregada, e não preciso me preocupar com alimentação por um bom tempo. Mas estou quebrado, minha interface está comprometida e manco com a perna direita. Conserto é prioridade. Tenho que me fazer útil de alguma forma, e defeituoso num mar de andróides plenamente funcionais não me é vantagem alguma, somando-se a isso minha incapacidade de fugir da polícia num cenário hipotético distante mas não improvável. Meu atual estado é deplorável.

River of Gods

Mas isso parece sumir da minha cabeça quando, uma vez mais, me dou conta dos arredores. Transeuntes desviam de mim na calçada, sem disfarçar o azedume com o obstáculo plantado no meio do caminho. Atravesso a calçada e me encosto na parede da frente de um dos estabelecimentos que preenchem a rua, observando a infusão de pessoas transitando e os carros disputando espaço depois delas. Pedi a Kátia que me deixasse numa área mais habitada, e por mais que não fosse caminho ela fez esse favor de boa vontade. Talvez minha atuação na noite passada tenha sido melhor do que eu esperava. A periferia é vasta, e sei que estou bem longe do centro. Minha intenção não é chegar lá, de qualquer forma; o policiamento é maior, e esse fato por si só me apavora.

É engraçado. O que quer que tenha me arrastado para cá, a convicção sobrenatural que me guiou, parece ter desaparecido agora, não tendo sido substituída pelo sentimento de satisfação que os humanos dizem sentir quando alcançam seus objetivos ou coisa parecida. Mas estou aqui, enfim, e vou me preocupar com o que acontece a seguir, não com o que já aconteceu. Olho apra cima, pro céu que se vê além do domo energético que cobre a cidade, e vejo resquícios de claridade tentando infiltrar a barreira intransponível de nuvens barrentas carregadas de cinzas, sujeira e pó. A tênue claridade é impraticável aqui, mas numa rua comercial como essa os inúmeros postes iluminam satisfatoriamente, e daqui pro centro a iluminação pública só melhora. À noite, as luzes são reduzidas, emprestando à cidade uma sensação de descanso condizente com o horário de repouso natural da maioria dos humanos, reduzindo oportunamente o consumo de energia. Foi assim que enxerguei a cidade ontem, mas agora vejo-a em todo seu esplendor.

Muitos dos humanos andam com PoMos na mão, segurando-os contra a orelha, conversando e gesticulando. PoMo é a sigla e nome coloquial do Ponto Móvel, o pertence eletrônico mais importante dos cidadãos de Alpha-12. Além de possibilitar comunicação, por vídeo ou voz, com qualquer outro cidadão dentro dos muros da cidade, serve como documento pessoal, agregando todos os dados num único aparelho. A posse de um PoMo é direito nato de todo humano devidamente registrado nos arquivos públicos, e ele é concedido pelo governo quando a pessoa atinge os cinco anos de idade. Os robôs, obviamente, não podem ter PoMos. Percebo também alguns poucos andróides de modelos antigos, que destoam drasticamente da paisagem geral. Já os modelos novos, como eu, que se mesclam facilmente com os humanos, só são distinguíveis porque possuo uma imagem de reconhecimento para cada um deles armazenada em minha memória. A maioria das pessoas se veste de forma simplória, refletindo a situação econômica da área.

Uma mulher gorda de cabelos curtos, rebolando numa saia estampada com desenhos indefiníveis, atravessa a rua e caminha na minha direção. Ela passa ao meu lado e para em frente à porta do estabelecimento, que abre automaticamente. Me afasto um pouco para conseguir ler a fachada bandeirosa da loja, pintada acima da porta, que não havia percebido antes. “Pêlos e Penas”. Uma loja de animais domésticos. Animais robóticos, réplicas dos que viveram há muito tempo atrás espalhados pelo mundo, quando este ainda era verde e agradável. É como dizem ter sido, pelo menos.

Animal house shop front

A vitrine está repleta de espécimes variados, separados por grades e prateleiras. Vejo esquilos, camundongos, gatos, cachorros, patos, guaxinims, tatus, pássaros, e espremendo os olhos para enxergar o meio do lugar, numa gaiola à parte, até uma ovelha. Fascinante como os humanos sentem uma necessidade incurável de companhia.

Me afasto da loja, juntando-me à correnteza de pessoas andando de um lado pro outro, e subo a rua, reparando na fachada dos estabelecimentos, procurando por uma oficina, uma assistência técnica para andróides. Desviando-me da turba, chego ao primeiro cruzamento, em frente a uma faixa de pedestres, onde a lei indica que os carros parem, dando preferência aos pedestres. No centro, a maioria dos carros são novos, imbuídos dos sistemas de direção automáticos, que forçosamente respeitam as leis, mas aqui, na Cidade Velha, como chamam coloquialmente a periferia da cidade, a maior parte dos carros ainda podem ser operados manualmente pelos humanos, e a maioria transgride as regras com uma naturalidade invejável.

Um amontoado de pessoas espera na calçada para atravessar a loucura caótica que tornou-se o trânsito no horário comercial. Eu me junto a elas, e na primeira oportunidade escapulimos para o outro lado. Com mais alguns passos, ouço o barulho de metal amassando metal vindo da rua principal, e imitando uma multidão curiosa, viro a cabeça para verificar o ocorrido. Um acidente, bloqueando as duas pistas da rua. Três carros com amassados hediondos, entrelaçados pela  inépcia no volante de um dos motoristas – ou todos. Um deles, um homem parrudo, deixa o carro gritando desafios para um velho de cabelos brancos escondido atrás do volante, que mal se mexe. A terceira motorista, uma senhora de aparência frágil, me parece em choque.

Continuo andando, aproveitando a paralização nas ruas para atravessá-las sem dificuldade. Em pouco tempo visualizo uma viatura policial, deslizando pelos céus com sua sirene escandalosa. O aeroplano, pintado com o símbolo do departamento de polícia, voa na direção do acidente e paira logo acima dos veículos batidos. Já estou distante, mas ainda consigo visualizar uma rampa abrindo-se do veículo e policiais descendo na rua para averiguar o ocorrido, com um último policial a bordo de uma pequena plataforma planadora controlando a multidão em volta. Se meu zoom estivesse funcionando, poderia averiguar a cena com muito mais detalhes.

Sigo por longos minutos, até que finalmente acho uma loja de assistência técnica, da Optimicom. Não é a empresa que me criou, mas eles devem saber informar onde posso achar uma da Tecnobótica. A porta da frente se abre quando me aproximo, e logo me vejo dentro de um grande salão com imensas fileiras de peças e componentes que se estendem até o fundo, as paredes decoradas com robôs inativos vestidos nas mais diversas modas humanas em voga. Um balcão largo separa os funcionários andróides dos diversos clientes, modelos da Optimicom, espalhados por toda a extensão do balcão. Noto alguns dróides com seus donos a tiracolo; os andróides normalmente vêm sozinhos às lojas de conserto, mas ocasionalmente os donos gostam de acompanhá-los, por um motivo ou outro.

Um atendente, vestido com o uniforme padrão azul, surge de uma das fileiras e me aborda com um gesto vago de cabeça.

– Como posso ajudá-lo, senhor?

– Estou procurando por uma assitência técnica da Tecnobótica, sabe onde posso encontrar uma?

– A 3,57 quilômetros daqui, senhor, sentido noroeste. Cruzamento entre as ruas Estôncio e Vale Castado. Não consegue acessar seu mapa?

– Exatamente.

– Bom, sugiro que o senhor conserte este problema o quanto antes. Tenho certeza que seu dono odiaria perdê-lo, incapaz de encontrar o caminho de volta para casa.

– É o que pretendo. Aliás, do que vocês precisam para consertar um dos seus modelos?

– Apenas do número de registro e aprovação de crédito do dono. Enviamos o orçamento no mesmo dia, após rápida análise. Acredito que a Tecnobótica utilize o mesmo processo.

– Número de registro?

– Sim, senhor. O número de identidade gerado pelo governo que indica sua afiliação a um humano.

– Claro, claro. Então ele é necessário para o conserto? Mesmo se o andróide tiver dinheiro para pagar por ele?

– Absolutamente. Não aceitamos moedas, apenas crédito, e só humanos possuem créditos. Além do mais, um andróide sem número é considerado fora-da-lei, e é crime prestar serviços a tais andróides.

– Hum… Tudo bem, obrigado pela atenção. Vou procurar a assistência da Tecnobótica.

– Sem problemas, senhor. A Optimicom agradece o seu interesse, e lhe deseja um bom dia!

Ótimo. Não conseguirei conserto tão facilmente quanto esperava. Saio da loja, andando a esmo, calculando o que fazer em seguida.

Market tutorial by Neisbeis at Deviantart.com

Me perco pelas ruas, admirando a arquitetura anárquica das lojas e casas da região, e logo chego ao que concluo ser uma feira, montada numa praça apinhada de pessoas. Tendas e barracas improvisadas, vendendo quinquilharias, tecidos, roupas, bijuterias, comes e bebes. Uma aglomeração humana de consumo desenfreado. Me enfio pelos corredores estreitos, admirando os produtos expostos em tablados improvisados sob os tetos tortos das barracas. Reparo em jovens vestidos com trapos, parecidos com os que uso agora, sentados em bancos e encostados em esculturas quebradas e sujas, com olhares aguçados. Párias da sociedade, relegados a segundo plano.

Ouço música, música produzida por um grupo de pessoas num palco improvisado com seus instrumentos percussivos. Não faz muito sentido para mim, a música. É só um conglomerado de sons, uma equação matemática traduzida em batidas. Mas os humanos que se amontoam em volta do grupo parecem gostar.

Perco bastante tempo apenas observando, aprendendo, assimilando. É sempre bom para um andróide ampliar seu repertório de comportamento humano. Embora eu saiba que, no fundo, tem que ser algo mais que isso. É como se estar aqui, rodeado de pessoas, me faça sentir… Satisfeito. Vivo. Parece fazer sentido eu aqui, no meio de tudo isso, por mais que não faça.

Perdido em devaneios, procuro uma barraca que vende roupas masculinas. Acho uma calça e uma camisa do meu tamanho, e pago por elas com parte das moedas, que começam a rarear. Não vão durar muito. No banheiro público, construído no meio da praça, tiro as roupas maltratadas do corpo e visto as novas. Ajeito o cabelo sintético e limpo a sujeira do rosto na pia. Agora sim, muito mais apresentável.

Assim, resolvo enveredar novamente pelas ruas. Mas antes que possa dar cinco passos para longe do banheiro, algo segura meu braço direito por trás, e me viro instintivamente.

Dominic Fortune by Howard Chaykin

– Você vai comigo pra delegacia – me diz, sem cerimônia, um policial humano de queixo largo e ossudo, apertando meu braço com força desnecessária.

.capítulo 14

Inexorável – parte 6 e final

por Cristiano Imada

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Uma linda mulher com um longo vestido branco girava e flutuava, seus longos cabelos esvoaçando e acariciando o ar. Os dedos metálicos que seguravam o pequeno holoprojetor do qual ela irradiava estremeceram brevemente, e a mulher de cabelos tingidos de azul foi ao chão, onde sua luz esvaneceu.

Agora, um belo rapaz estava ao lado da noiva, e eles olhavam alegremente para o horizonte, abraçados. Os dedos estremeceram novamente, e o casal desapareceu sem deixar vestígios, sobre o monte de entulho. “Ele é… Seu nome é…” – A voz metálica cambaleante ecoou na escuridão. Sem forças, não insistiu em se lembrar de quem eram.

– Eu te amo demais, Marlow. Quero me casar com você… – alguém sussurrou perto do ouvido de Marlow. Quem era ela? – “Minha senhora…” – a resposta aflorou de algum fragmento que ainda permanecia consistente em seu interior. – Vamos nos casar e ir embora daqui. Vamos ficar a sós… Só nós dois… – Marlow estava no interior aconchegante de um apartamento muitos andares acima da Cidade Velha. A luz artificial trocava de cor ciclicamente, transitando entre as cores do arco-íris, refletindo nos móveis do aposento.

– Eu os amo demais… – dois garotos sorriam e acenavam para Marlow. – Meus filhos são lindos… não são? São meus orgulhos… Minha vida… Tão inteligentes quanto papai… – os dedos metálicos estremeceram mais uma vez e os garotos foram embora.

– Que lindo! – dizia orgulhosa a adolescente que olhava para Marlow. – Brigada, papai! – ela abraçou e beijou um senhor que, desengonçadamente, perdeu a austeridade ao ser afagado com tanta doçura. – Vou cuidar muito bem dele!

– Depois de tudo… por quê? Parece que foi ontem que eu o embalava em meu colo, com todo o cuidado que meu amor exigia… Tão lindo e dócil e inocente… Meu filho… – um senhor desengonçadamente perdia toda sua austeridade, torturado com tanta penúria. – A vida não é justa… – e chorou.

A sua senhora, ainda jovem, respondeu: “Para um lugar lindo e azul acima do domo, certa vez lhe falaram há muito tempo atrás, para um lugar chamado céu” – Marlow não se lembrava da pergunta.

– O nome dele é Marlow… Uma pequena homenagem a você. O mais novo tem meu nome… – Qual era o nome dele?

Um jovem vestido de beca sorria abertamente para Marlow. – Marquinhos é tudo para mim… Espero que ele tenha mais sucesso do que eu… Não vejo a hora dele entrar na faculdade… Mas com essas notas no ensino médio, vai ser fácil ele conseguir uma cadeira… – Os dedos metálicos estremeceram novamente, e foi a vez do jovem desaparecer, sumindo também da debilitada memória do robô.

– Você é tudo para mim. Quando saio de casa, não vejo a hora de voltar para cá e ficar com você… Tenho medo que eles te tirem de mim… – Marlow estava preocupado. Sua senhora não se relacionava mais com seres humanos. Alguns plug-ins de análise psicológica acusavam uma grave doença mental. Logo ele teria que acionar o hospício… – Você promete que vai ficar comigo para sempre, Marlow?

– Minha esposa tem medo daqui, caso contrário traria minha família para você conhecer. Mas trouxe alguns holoprojetores… Assim você poderá ter-nos por perto para sempre… Segure-os, isso não vai usar muito da sua energia…

Robôs não duram para sempre. Essa foi a conclusão óbvia a qual Marlow chegou após pesquisar o que acontece com os robôs quando não têm mais utilidade, nem mesmo para o trabalho forçado na usina subterrânea de energia. Robôs não vão para um lugar lindo e azul acima das nuvens, na verdade, são amassados e jogados do lado de fora do muro. Sua senhora ficou chocada com a descoberta. – Jamais! – gritou. – Jamais permitirei que façam isso com você!

– Jamais permitiria que alguém fizesse mal à ela. Mas como posso lutar contra isso? Como posso? Como posso evitar que tirem aqueles que amo de mim? Não é algo que eu possa lutar contra… Juramos ficar a vida inteira juntos… Mas a vida nem me dá o direito de revidar… de tentar impedir… de ter uma chance… Maldito câncer! – Gritou, exteriorizando toda a dor de suas vísceras. A senhora de cabelos azuis, expressão mórbida e cansada, deitada na cama de lençóis brancos, lançava um olhar sofrido para Marlow. Os dedos metálicos estremeceram, e a senhora de trinta e poucos anos afastou-se dos olhos de Marlow. Sobre o chão, sob a sombra do robô, outro holoprojetor perdia sua luz.

– Jamais permitirei que façam aquela barbaridade com Marlow – sua senhora conversava consigo mesma em seu quarto. Com audição sobre-humana, Marlow ouvia suas divagações. – Eu o amo demais para permitir que façam aquilo com ele, porém, se ele me ver morrer, o que seria dele? Prefiro mentir, e uma vez que ele é um robô não vai me contestar. – Sua senhora estava enfraquecida pela idade e pela pobreza. Mal tinham alimentos para abastecer seu corpo orgânico, contrastando com seu passado abastado. Se Marlow realmente compreendesse e possuísse sentimentos, e se lhe fosse permitido, certamente contestaria a insistência dela em nunca deixar faltar o seu óleo e sua energia.

Eu prometo que, enquanto eu tiver energia e meu corpo estiver em condições, eu…” – Marlow não se lembrava do resto da frase.

– Esse é meu neto… Lindo, não é? Ele é meu orgulho… Minha vida… Pena que minha esposa não possa vê-lo… –  um senhor desengonçadamente perdia toda sua austeridade, torturado com tanta penúria. – A vida não é justa… – e chorou. Os dedos metálicos estremeceram, e o pequeno bebê sonolento também sumiu.

– A senhora não está com fome? Eu tenho aqui uma apetitosa sopa que pode saciá-la… – Marlow curvou-se levemente, com o prato de sopa na mão que ele mesmo havia preparado. Como a despensa e a geladeira estavam vazias, ele tomou todo o cuidado ao analisar em comestível ou não o pouco que tinham. O detergente parecia o suco de morango industrial que sua senhora tanto gostava. O rato morto devia ter proteínas e outros valores nutricionais. Como não tinha água na torneira, ele recolheu um pouco da que tinha no vaso sanitário. Certamente essa refeição melhoraria a saúde de sua senhora.

– Estou morrendo, Marlow. É a idade… Infelizmente, todo corpo orgânico se deteriora. É impossível vencer o tempo… Mal tive forças para descer até aqui dessa vez e comparecer no que deverá ser nosso último encontro… – os dedos metálicos estremeceram, e o último holograma se perdeu no ar. O senhor, seu filho e seu neto já adolescente se juntaram aos outros momentos, escondidos da luz do único poste funcional da região, sob a sombra de Marlow.

– Não, Marlow, você não me levará ao hospital – algumas décadas antes, a sua senhora trocara alguns arquivos de seu sistema operacional, contratando hackers procurados pelo governo. Seu novo sistema era em boa parte copiado de projetos experimentais, o que tornava o comportamento de Marlow muito mais humano. O sistema hackeado também fora alterado para impedir que algumas diretrizes de Marlow atuassem, o que o impediu de acionar o hospício quando sua senhora começou a demonstrar problemas mentais. E obviamente havia sequelas, já que algumas funções acabaram danificadas, como sua capacidade de analisar a comestibilidade de objetos. – Eu… quero morrer aqui… – uma lágrima correu pela sua face. – Marlow… Eu quero que você me prometa uma coisa… – ela gemeu de dor, levando sua mão ao estômago. – Eu quero que você vá até a rua mais deserta da Cidade Velha e me espere lá até eu ir buscá-lo…

– Oh! Senhora! Aqui permanecerei, impassível, até que retornes da abóboda celeste, esperarei-lhe e depois lhe servirei fielmente por mais 100 anos!

Um apito imaginário começou a soar, aumentando a intensidade gradativamente. Sua bateria estava quase acabando.

Para economizar sua bateria, Marlow hibernara, imóvel e de pé no beco que encontrara.

Chocantes ruídos eletrônicos, chiados cortantes, imagens rabiscadas, compreensões distorcidas e destoantes. O pensamento, leve e fluído, escapa pela mente e se esconde no último sonho anacrônico, para logo depois esvanecerem juntos rumo à intangibilidade das memórias efêmeras.

Ribombantes estrépitos estridentes, espontaneamente a percepção volta-se aos incensantes barulhos intensos. Calem-se! – ordena a vontade, mas eles teimam, e queimam a calmaria, flagelando a alienação. Pesando quatrilhões, pouco a pouco despertam iradas as noções, pressionando um êxtase melancólico no coração. Mesclam-se os encantos, viciantes e pungentes, porém é inevitável, vagarosamente flutuam à superfície do sufocante oceano as percepções ofegantes.

– Seremos um lindo casal… – disse sua senhora, vestida de noiva.

– Parem com isso! Vejam, ele chorou!

– Aqui permanecerei, inexorável, até que retornes… – murmurou.

– Quanta desordem e sujeira…

– Será que a palavra que gostaria de dizer é “orgânicas”?

– Olá, Marlow.

– Isso seria uma imensa gentileza e generosidade… Eu ficaria… muito grato… – Marlow abriu um grande sorriso, expondo alguns micromotores, nervos de aço e outros componentes metálicos.

Brincar de pega-pega?

“Ele está rindo”

– Não… Não sou capaz disto…

– Hoje foi divertido conversar com você…

– Até mais, Marquinhos.

– Elas morrem rápido – observou Marlow.

– Já conseguiram descriptografá-lo?

– E porque você não vai com eles?

– Não se preocupe, eu sempre estarei aqui…

– Até mais… se… comporte…

– Eu estou bem, ao contrário de você, cada vez mais aos pedaços.

– Eu não posso sair daqui.

– Que ironia.

– Não se preocupe. Vai dar tudo bem.

– Não precisa pedir desculpas, senhor. O erro foi meu.

– E quem tem a razão?

Uma linda mulher com um longo vestido branco girava e flutuava, seus longos cabelos esvoaçando e acariciando o ar. Os dedos metálicos estremeceram uma última vez tentando agarrar a memória, em vão.